Por Rodney Brocanelli
Morreu neste sábado (21) o dramaturgo e ator Juca de Oliveira. Segundo o site G1, ele estava internado no hospital Sírio-Libanês há aproximadamente sete dias devido a um quadro de pneumonia associado a problemas cardiológicos. O velório acontece ainda neste sábado no Funeral Home, no centro de São Paulo, entre 15h e 21h. O local do enterro não foi divulgado até a publicação deste texto. Ele tinha 91 anos.
Um dos grandes nomes das artes cênicas, Juca teve passagens marcantes no teatro primeiramente integrando a equipe do Teatro Brasileiro de Comédia e depois ajudando a fundar o Teatro de Arena, grupo teatral fundado, em 1953, que foi inovador em sua época, privilegiando os textos nacionais.
Em televisão, atuou em novelas da Bandeirantes, SBT e Globo. Nesta última, fez personagens marcantes e até hoje o Albieri, de O Clone, faz parte do imaginário popular.
No ano de 2009, Juca de Oliveira foi contratado pela BandNews FM para ser a voz da coluna Devaneios (ouça abaixo). Sua proposta, conforme divulgado na época, era a leitura e a interpretação de textos da literatura mundial, desde os mais consagrados àqueles mais contemporâneos, incluindo alguns de autoria do próprio ator. “Assim como no teatro e na televisão, só escolho os textos que falam à minha alma”, declarou
“O rádio é da maior importância, ele está cada vez mais vivo. Vamos levar o devaneio e o apaziguamento para os ouvintes através da poesia e da literatura universal”, afirmou.
O investimento em cultura foi reconhecido pela APCA, Associação Paulista dos Críticos de Arte, que concedeu o prêmio de revelação do rádio naquele ano. Na ocasião Juca estava satisfeito com a repercussão junto ao público. “Fico feliz quando os ouvintes conversam comigo sobre o ‘Devaneio’. Creio que conseguimos alcançar o objetivo da coluna, que é dar uma pausa de alguns minutos em meio ao noticiário deste conflagrado mundo contemporâneo, levando ao ar o devaneio e a fantasia”, falou.
Ainda em 2009, Juca de Oliveira foi o personagem da coluna 4 Paredes, que era publicada exclusivamente no site da revista Época São Paulo e comandada por mim. Na ocasião, ele falou um pouco mais sobre o Devaneios. De quebra, ele ainda deu várias dicas de lazer para se fazer dentro de casa (livros, séries, música), que fazia parte da proposta daquela seção (uma reedição talvez de algo que fazia sucesso no Jornal do Brasil nos anos 1980: o Perfil do Consumidor). Para horror de muitos puristas, a entrevista foi pelo e-mail. Mas já uma justificativa. Ele estava afônico e ainda estava viajando com uma peça intitulada Happy Hour. Veja abaixo.
É a sua primeira experiência em rádio?
Juca – Sim, é a primeira vez.
O que te levou a aceitar este convite?
Juca – A idéia foi do André Luiz Costa, do Jornalimo da BandNews. Depois da morte do Paulo Autran ele me procurou para estudarmos a possibilidade de eu continuar com o “Quadrante”. Não me pareceu bem, na época, “substituir” uma personalidade insubstituível com o Paulo e acabei recusando. O André deve ter captado meu interesse, apesar da recusa, e continuou insistindo. Até que, recentemente num encontro num restaurante, voltamos a nos falar. Nesse dia já marcamos um encontro, conversamos, trocamos muitas idéias, mantivemos o título “Quadrante” apenas na lembrança eterna do Paulo Autran e partimos para o “Devaneio”.
Como se dá a escolha dos textos que você interpreta no ar?
Juca – O critério da escolha é a qualidade, o mérito, algo tão esquecido atualmente, sobretudo em nosso país onde só se premia diariamente o vício e a incapacidade em detrimento da qualificação e do talento. A idéia do devaneio é repousar o espírito ao som das palavras dos grandes criadores espirituais da humanidade, os grandes poetas e cronistas de todos os tempos e de todos os cantos da terra, nos incutindo paz, ânimo, beleza, solidariedade, altruísmo e muito humor.
Como está a turnê da peça Happy Hour? Existe uma possibilidade de retorno à São Paulo?
Juca – Sim, devemos voltar pra São Paulo no começo do ano, para um teatro que ainda estamos negociando. Pra você ter uma ideia, saímos do Teatro Jaraguá com casas lotadas, estreamos nossa turnê em São Caetano com casas absolutamente lotadas todos os dias e estamos numa excursão de sucesso incomum: Porto Alegre, Curitiba, Salvador, casas totalmente lotadas, gente voltando da bilheteria e pedidos de sessões extras ou temporadas mais longas no ano que vem.
As dicas de lazer
Internet: (quais os sites que você gosta de navegar, redes sociais, sites de notícias, enfim, vale tudo)
Juca – Eu uso tudo que há de disponível para pesquisas, Google, Yahoo etc. etc. Meu trabalho hoje depende fundamentalmente disso. Consulto a Amazon, compro quase tudo sobre técnica de construção dramática, playwriting and screenwriting, visito sites sobre atores, busco e coleciono TIPS, faço downloads no SCRIBD, enfim uso o que encontro.
Tv aberta ou tv a cabo: (quais os programas que você gosta de assistir, seja em tv aberta ou na tv a cabo)
Juca – Todos os jornais nas TVS abertas ou a Cabo. Vejo policiais, ainda hoje acompanho lançamentos do Law and Order”. Vejo filmes quando tenho tempo, quando relaxo.
Rádio
Juca – Estou sempre ligado nas rádios, sobretudo no noticiário. Ouço a minha, claro, a Band News, mas também CBN, Eldorado. Ouço música na Cultura, sobretudo música clássica e ópera
Livros: (qual é o livro que você está lendo atualmente. ou então qual foi o último livro que você leu. serve também um livro marcante que você tenha lido)
Só agora acabei de ler os Contos de Isaac Babel. Ruben Fonseca foi quem me desvendou esse gênio através do seu policial “Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos”. Me apaixonei por Isaac Babel. Nenhum outro escritor mexeu tanto comigo. Além de figurar entre os maiores autores russos de todos os tempos pesa ainda sobre ele a tragédia de ter sido fria e covardemente assassinado por Stalin. Ainda jovem, aos 47 anos, implorando para que não o fuzilassem, que lhe permitissem completar a sua obra… Já li o “O Velho Shloyme”, um pequeno conto que abre suas obras completas, umas vinte vezes. E chorei todas elas.
DVDs (quais os DVDs que você viu ultimamente. podem ser filmes ou shows ao vivo)
Minha filha Isabella é quem me fornece uma infinidade de DVDs sobre tudo. Filmes, Shows, One Men Shows, etc. etc.
Games (você gosta de jogar? Se sim, quais são os seus preferidos? Não precisam ser os games eletrônicos)
Juca – Não, não ataco de games. No computador apenas xadrez . Há muito uso o Chessmaster. Agora deve andar pelo número 10. É fantástico. Você pode jogar com o próprio Kasparov, em pessoa… Pra quem não sabe Kasparov é o campeão do mundo.
Hobbies em geral (se você gosta de fazer algo dentro de casa que não esteja enquadrado nos itens acima)
Eu vivo numa fazenda há 37 anos. Quando estou em casa meu hobby é floresta e os animais. O habitat natural do homem é a floresta, não a cidade. Nesse caso o hobby são as capivaras, lagartos, jacus, lobos guarás, maritacas, tucanos, morcegos, etc. etc. As cachoeira, o lago, as jabuticabeiras, mangueiras…Esses itens não são totalmente fechados. Por exemplo, se você não gosta de ver tv (um exemplo), cabe uma explicação do motivo (insatisfação com o que passa na tv aberta, por exemplo). Eu gosto muito de ver TV. É que estou permanentemente trabalhando. Se não estou no palco, estou escrevendo ou pensando, criando a próxima peça, o próximo espetáculo. Minhas escolhas na TV, portanto, são muito dirigidas. Se estou escrevendo sobre uma mulher que teve seu marido assassinado pela ditadura em 72, foi torturada, – é um exemplo – todo meu interesse pelo cinema, TV ou literatura será desviado pra esse drama. Nesse período não há como ver outra coisa. Apenas pra descansar. Aí, os policiais…

Foto: André Rizzatto