Diversos veículos divulgaram na data de hoje (12) a morte do cantor e compositor Eric Carmen acontecida no final de semana. Ele tinha 74 anos e ao menos até agora a causa não foi divulgada. Carmen provavelmente partiu sem saber que um de seus principais hits “Ali By Myself” teve uma enorme influência na cultura pop brasileira e no rádio, por que não?
Tudo começa quando Chico Anysio, que dispensa maiores apresentações, cria e coloca no ar um personagem para o seu Chico City, humorístico semanal veiculado pela TV Globo na metade dos anos 1970.
O programa estreou em 1973 a ideia era reunir todos os personagens de Chico em uma cidade fictícia para, com isso, satirizar os acontecimentos daquela época. E como toda cidade que se preza, ela tinha uma emissora de rádio. Seu principal locutor era Roberval Taylor.
Eis a definição do site Memória Globo sobre ele: “Radialista e locutor oficial da Rádio Chico City . De olheiras profundas e voz empostada, o irresistível comunicador era um demolidor de corações femininos, com seus belos poemas, traduções de músicas românticas e sua pronúncia irretocável”.
O sucesso foi imediato. Porém, ao menos uma pessoa se sentiu incomodada com esse personagem: Hélio Ribero. Na época, ele vivia seu auge na Rádio Bandeirantes, onde já comandava o seu consagradíssimo O Poder da Mensagem.
Uma dos pontos altos da atração era a tradução de músicas estrangeiras, em geral estadunidenses. Muitos ouvintes desejavam saber o significado de suas músicas preferidas e se ligavam em Hélio.
O personagem de Chico era altamente inspirado em Hélio, especialmente na empostação da voz e na questão das traduções.
Uma delas, que chegou até a ser registrada em disco (sim, em disco) é justamente All By Myself, de Eric Carmen (achou que tivéssemos se esquecido dele?). A canção atingiu o segundo lugar na parada da Billboard, em novembro de 1975 e ganhou diversas regravações, entre as quais a de Celine Dion.
Na versão livre de Roberval, All By Myself se transformou em Tudo Eu. Em inglês, o título tem o significado de Completamente Sozinho (ou sozinha, dependendo de quem canta).
Como já dissemos, houve esse incômodo de Hélio Ribeiro com Roberval Taylor, gerando algumas falas dele no ar. No entanto, a história teve um desfecho bastante positivo, que acabou entrando para a história do rádio.
Chico Anysio foi até os estúdios antigos da Rádio Bandeirantes e concedeu uma longa entrevista a Hélio dentro do Poder da Mensagem. “Ele (Roberval) é um entre muitos que querem ser Hélio Ribeiro”, disse o comediante.
O resultado é que depois desse bate-papo, as coisas se resolveram. Chico prosseguiu interpretando sua criação e Hélio já não mais implicou com o personagem. Eric Carmen talvez nem teve conhecimento de tudo isso.
Por Rodney Brocanelli (com a colaboração da equipe Webfutmundi)
Chico Anysio, morto nesta sexta-feira aos 80 anos, começou sua carreira no rádio. É célebre a história de que ele sempre ficou na segunda colocação em testes para locutor, derrotado por Silvio Santos. Mesmo assim, ele conseguiu seu espaço no veículo. Começou na Rádio Guanabara (atual Bandeirantes), nos anos 40, e lá desempenhou várias funções: ator, redator, locutor e comentarista esportivo. Mudou-se para a Rádio Mayrink Veiga algum tempo depois e nessa emissora criou um de seus tipos mais famosos: o professor Raymundo.
Como era de se esperar, Chico migrou para a televisão, veículo no qual ele conquistou o sucesso nacional e admiração dos fãs. Contudo, ele nunca deixou o rádio de lado. Um de seus personagens era uma verdadeira homenagem à estética e as figuras que fizeram este veículo ser o que é: Roberval Taylor.
Abaixo, Roberval dá as últimas do esporte.
No programa de Roberval não poderia faltar o horóscopo.
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Mas teve gente que não gostou muito desse personagem. O grande Helio Ribeiro achou que Roberval Taylor era uma paródia não muito lisonjeira ao seu estilo de fazer rádio. Quem conta mais detalhes é Sérgio Mattar, em texto extraído de seu blog.
Um certo dia, nos corredores da Rádio Bandeirantes de São Paulo, um acontecimento singular, foi a visita que Chico Anysio de Paula fez à Hélio Ribeiro, no estúdio A, durante o programa de maior audiência da rádio brasileira: “O Poder da Mensagem“.
Ribeiro com seus cabelos ondulados comprimia-os com enormes fones de ouvido plugados em um grande rádio portátil instalado ao lado de seu microfone. Sua voz personalíssima, ecoava naquele momento sobre a voz melodiosa de Frank Sinatra, versando nada mais do que “All the way”.
Os velhos “olhos azuis” como era tratado o bom e velho Frank, irmanava-se ao dueto maravilhoso, na tradução simultânea do talento e criatividade de Hélio Ribeiro.
Neste exato momento adentra ao estúdio o genial Chico Anysio que, apesar de não conhecer Hélio pessoalmente se pôs ao seu lado, e sem nenhum constrangimento passou a imitá-lo. Tal e qual.
Terminada a música, com tradução do Hélio Ribeiro, houve a apresentação recíproca entre Chico e Hélio e aí, rolou um papo fenomenal intercalado por outras música e traduções, além, do “filosofar poético” do “O Poder da Mensagem”.
Após as despedidas Chico retorna ao Rio e a “vidinha” segue na sua normalidade.
A Rede Globo lança um novo programa no ar com forte alarido e participação de grande elenco do humorismo nacional… “Chico City”.
Programa idealizado por Chico Anysio colocava suas personagens em atividade plena. Seus coadjuvantes faziam a escada para Chico deitar e rolar.
De repente, um fato novo, uma personagem nova, uma voz nova na cidade de Chico, era um Chico diferente, “aquele” Chico do estúdio do “Poder da Mensagem”.
Surgia “Roberval Taylor” ou a caricatura de Hélio Ribeiro elevada a potência “n”.
Foi uma balbúrdia nacional. O meio artístico entrou em ebulição. Hélio Ribeiro que entendeu “Roberval Taylor” como uma ofensa ao seu trabalho e desempenho, disparou pelas ondas médias da Rádio Bandeirantes uma ofensiva à Chico Anysio.
Evidentemente, Chico que, quis homenageá-lo ao criar “Roberval Taylor”, se pôs a satirizar mais ainda a sua criação.
Por um tempo o “mal-estar” entre ambos pairava. Um dia, por iniciativa de amigos comuns de Chico e Hélio, foi improvisado um encontro no mesmo estúdio A, no mesmo horário do “Poder da Mensagem”, para a desfeita daquele tremendo mal entendido.
De fato, apesar de, temperamentos difíceis e personalidades fortes, tanto Hélio como Chico deram grandes gargalhadas e efusivos abraços, colocando um ponto final naquele equívoco que pairava na genialidade daquelas cabeças.
Chico, com o concentimento do Hélio Ribeiro, continuou com seu “Roberval Taylor” melhor e… com mais um fã de carteirinha.
Está aí uma ótima oportunidade para a Rádio Bandeirantes, na figura de Milton Parron, recuperar o áudio desse programa histórico reunindo dois gênios.
Abaixo, uma tradução toda especial de Roberval Talyor à musa do Karmanguia batido.
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Chico teve uma relação estreita com o rádio esportivo. Nos anos 90, chegou a ser comentarista nas transmissões de futebol na Rádio Tupi, do Rio de Janeiro. No livro Paixão pelo Rádio”, do Rodrigo Taves, José Carlos Araújo, narrador da Rádio Globo (RJ) deu seu depoimento sobre o humorista:
“(…) Chico Anysio puxa pela memória um grande amigo, a quem deu conselhos no início da carreira e convidou algumas vezes para participar de seu programa “Chico City”, na TV Globo. E solta um elogio:
“Existem três grandes locutores: Zé Carlos, Osmar Santos e Luís Penido. Cheguei a comentar dois jogos com o Osmar, cheguei a trabalhar com o Penido, mas nunca trabalhei com Zé Carlos, o melhor de todos. Gostaria de ter recebido um convite, sinto-me frustrado por nunca ter comentado um jogo com ele”.
Garotinho pensa o mesmo. Para ele, Chico é um dos três maiores artistas que o ajudaram. (…) E dele, guarda um ensinamento sábio, passado quando se conheceram nos anos 60 no estúdio da Rádio Globo: “A maior fonte de criação é o povo e, em contato com o povo, você aprende muito”.
“Sempre fomos chegados. Eu queria fazer um “Coalhada” (um dos grandes personagens de Chico) com ele, mas não teve jeito, não sei porque não foi possível. O vejo sempre aos domingos, gosto muito dele como pessoa e profissional também”, relata Chico.
(…) A relação de Garotinho com Chico Anysio sempre foi muito boa. Bruno Mazzeo, filho do humorista, foi um dos “torcedores do futuro” quando criança, e Chico já nem se lembra mais dos inúmeros bordões que sugeriu a Zé Carlos, mas sabe que sempre deu muitas ideias.
“Os bordões fazem o locutor, têm de existir. O Zé Carlos tem e usa na hora exata, não atrasa um segundo, você não perde um lance com ele. É um dos poucos que consegue inserir a propaganda sem você perder o jogo, o que é uma coisa difícil. Zé Carlos é um espetáculo!”, finaliza Chico”.
E o salário, ó!…
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O Show do Apolinho, na Rádio Tupi (RJ), veiculou uma reportagem especial sobre a perda de Chico Anysio.
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No programa Ensaio, da TV Cultura, Chico falou dessas suas passagens pelo rádio.
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Um de seus personagens mais marcantes, Alberto Roberto, em ação, entrevistando Galvão Bueno, que parece ter se divertido muito com essa participação em um quadro dos primórdios do Zorra Total.