A arte de conversar no rádio

Por Marcos Lauro

Há muitos estilos de locução. Lá no curso a gente aprende a jovem, adulta e popular, basicamente. E mesmo quem não é locutor conhece e tem o seu estilo preferido. Mas no meio dessas opções, as pessoas se esquecem da mais simples: a conversa.

Pois se o rádio é uma conversa com o ouvinte, por quê não levar um bom papo com a pessoa que está do outro lado do microfone? Lá no curso (ele, de novo) o professor fala pros alunos que têm mais dificuldade: “Imagina um ouvinte e conversa com ele!”. Acho que ninguém conversa berrando e falando rápido do jeito como algumas rádios jovens convencionaram.

Não é possível precisar quem “inventou” essa conversa no FM. Claro que é influência direta do AM e mestres como Big Boy ou Helio Ribeiro. Big Boy, mesmo caricato daquele jeito, batia ótimos papos com seus ouvintes na Mundial do Rio de Janeiro, enquando Helio Ribeiro já encarnava um jeito mais classudo de conversa. Sem contar, claro, comunicadores que estão por aí até hoje como Eli Correa, Paulo Barbosa e Zé Bétio.

Aparentemente, o grande celeiro para esse tipo de locutor foi a Excelsior FM de São Paulo, que operava nos 90,5 Mhz da atual CBN. Isso se explica pelo fato da emissora ter origem na Excelsior AM – A Máquina do Som. Com essa “virada”, a AM passou a se dedicar aos esportes enquanto a FM ficou com a linguagem jovem.

Em 1979, Kid Vinil já trocava altas ideias com seus ouvintes no Programa Kid Vinil, semanal e na mesma emissora, Mauricio Kublusly seguia a mesma linha, que deve ter servido como uma ótima base para as reportagens que faz hoje no Fantástico. Tinha ainda a Sonia Abreu, que hoje é mais conhecida como a primeira mulher DJ do Brasil e que já vinha da Excelsior AM.

Um ano depois estreava a Rádio Cidade, que já era sucesso no Rio de Janeiro e foi trazida para São Paulo nos 96,9 Mhz. A linguagem era pop-jovem e reuniu um time de primeira. Ouvi algumas pessoas mais experientes que eu para fazer esse texto (até porque eu nem era nascido ainda!) e o nome que mais se destacou foi Paulinho Leite – que hoje trabalha em Washington DC, na Organização Mundial da Saúde.

A década de 1980 serviu para intensificar a locução gritada das FMs jovens, que permaneceu ainda nas décadas de 1990, 2000 e começa a cair em desuso agora. Nessa semana estava ouvindo a Metrô FM, emissora na qual eu não conseguia parar por mais de um minuto, e a locução está mais suave.

Na verdade, hoje, são duas as condições que permitem essa locução conversada: a liberdade que a emissora dá para o profissional sair do padrão em sua performance e conteúdo. Se não tem conteúdo, o melhor é ficar no roteiro, não dizer besteiras e não comprometer a qualidade do que está sendo transmitido, certo?

Esses mestres da locução “conversada” no FM, que foram citados acima, e seus outros colegas tiveram um período rico para experimentar. Com o surgimento do FM, a faixa ainda estava se encontrando e tinha o som estéreo como trunfo para chamar a atenção do público. A qualidade ali era primordial e, mesmo com pouquíssimas emissoras (em comparação com os dias atuais), era um erro para o ouvinte mudar de estação. Hoje, a coisa me parece menos exigente e o grande público está naquela frequência pela música apenas.

Um comentário em “A arte de conversar no rádio

  1. Sempre muito bom ler matéria sobre a História do rádio!…Quanto a linguagem FM, foi Julinho Mazzei quem trouxe pro Brasil…Algo que existia nos EUA e por morar em NY, acabou implantando no rádio brasileiro. Embora a linguagem fosse mais acelerada, havia comunicação. Ele gravava os programas lá fora e enviava por um portador, qualquer pessoa que ele abordava no aeroporto e perguntava se vinha ao Brasil e poderia entregar aquele pacote pra uma pessoa no aeroporto…Assim, um representante da Difusora retirava a fita e o programa rodava semanalmente – “BIG APPLE”

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