Rádio sob demanda

O relativo sucesso de Gaby Amarantos ajuda a explicar como o rádio popular funciona hoje

Por Marcos Lauro

Gaby Amarantos - Foto: divulgação

O rádio parou de ditar as regras do que é ou não sucesso lá pelos anos 1990, quando a internet tomou esse posto. Antes, o que tocava no rádio era sucesso. Isso explica o desespero pelo jabá, das duas partes. A gravadora queria seus artistas no ar (porque se não estivesse lá não era sucesso) e a rádio queria faturar em cima das grandes empresas que lançavam seus artistas com pouca preocupação com as verbas de divulgação.

Isso acabou. E com o fim desse processo, chegou ao fim também esse grande termômetro do que era ou não sucesso. Hoje, como se mede o sucesso? Como saber se um artista conquistou ou não a massa, o povão?

Por incrível que pareça, um desses caminhos ainda é o rádio, só que de uma maneira diferente. Hoje o rádio funciona “sob demanda”. Se existe um artista que estoura na internet e alcança a massa, o rádio, para não ficar descolado da realidade, vai atrás. O último grande exemplo disso foi o cantor coreano Psy, que bateu todos os recordes de visualizações no YouTube com sua “Gangnan Style” e as rádios, especialmente as jovens, tiveram que comprar o single no iTunes para colocar no ar. Não teve como correr. Até hoje toca Psy em festinhas de aniversário de crianças por aí… já presenciei algumas e, sim, é sucesso!

Mas isso, claro, ainda deixa a dúvida no ar: afinal, o que é sucesso hoje? Como medir se o artista faz sucesso num determinado nicho ou se, realmente, já alcançou o povão e tem suas músicas cantadas dos botecos das periferias às festas dos grandes centros?

Um exemplo nacional: Gaby Amarantos. Vinda da periferia de Belém, a paraense surgiu no circuito de aparelhagens, festas extremamente populares nas periferias da capital do Pará. A partir disso, houve a tentativa de levar esse som tão característico do norte para outras regiões do país. Hoje, Gaby Amarantos aparece com frequência na Globo (e em outros canais), mas parece não deslanchar. Juízo de valor está longe desse texto, a discussão não é se é bom ou ruim. Mas: faz sucesso ou está represada num nicho de gente descolada e bem informada?

Uma forma de responder isso é o rádio (sob demanda). Costumo ouvir rádios populares com uma certa frequência e nunca ouvi nada da Gaby Amarantos nelas. Ou seja, não existe demanda, não existe uma massa ligando na rádio e pedindo a música (sim, isso ainda acontece!). Ocorre com Gaby Amaratos uma espécie de “pretagilização”, que é como chamo o processo de uma artista estar semanalmente na tela da maior rede de TV do país e não conseguir sair de lá. As pessoas vêem, acham “exótica” e no dia seguinte estão se perguntando: “quem é essa menina mesmo?”.

Talvez o som de Gaby Amarantos seja muito modernoso para as rádio populares, muito popular para estar nas rádios jovens e muito jovem para estar nas rádios de música brasileira. E, com isso, sua música não se encaixa em nenhum nicho e não ganha a massa, o povão. Fica no ar esse sucesso vazio, relativo, que deixa dúvidas sobre sua efetividade.

Claro que isso não inviabiliza sua carreira. Diversos artistas fazem sucesso apenas em alguns determinados nichos e vivem muito bem com isso. Um tipo de música que domina a periferia de Belém obviamente não foi feita com a finalidade de agradar aos ouvidos do sudeste ou de outras regiões… caso aconteça, melhor para a cantora e para toda a cena que a acompanha.

Agora, será que o rádio está condenado a viver sob demanda? Claro que competir com a internet não compensa e bater de frente seria uma atitude suicida, mas o rádio precisa ser aliado nesses tempos de YouTube, iTunes e Deezer. Se as rádios populares experimentassem tocar Gaby Amarantos, a massa compraria a ideia? Fica o desafio.

Foto: divulgação

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