Pouca informação, muitos sentimentos e homenagens marcam o livro #VoltaEldorado

Por Rodney Brocanelli

A grande história do rádio brasileiro nos últimos anos é sem dúvida a trajetória da Rádio Eldorado neste período de quase um ano. Um triste fim em maio, com sua saída da frequência dos 107,3Mhz, até o retorno glorioso nos 107,9Mhz (quase do lado) em outubro. Era natural que seus bastidores fossem registrados, mas não se imaginava que isso acontecesse em tão pouco tempo. Eis que temos #VoltaEldorado, escrito por Emanuel Bomfim e lançado pela Panda Books. Um de seus méritos é ser um “testemunho à quente”. Porém, quem espera por boas histórias de bastidores poderá se decepcionar. Elas até existem, porém são superficiais. Talvez o fato de seu autor ser diretor artístico da emissora colabore para isso.

Logo no segundo capítulo Emanuel revela que ficou sabendo que havia um risco da emissora ar do ar no dia 18 de novembro de 2025, sem trazer outros detalhes. Há uma tentativa de compensação com o relato de uma reunião dele com a diretoria da rádio, quando ele ouviu que a frequência dos 107,3Mhz deveria ser devolvida à Fundação Gamaro.

Em apenas um momento, o autor fez questão de trazer um dado relevante: em nenhum momento, uma migração para os 86,3Mhz, faixa do FM estendido foi negociada. “Notícia inverídica”, escreveu. Em coberturas como essa, é muito comum que rumores pipoquem para lá e para cá. O problema é quando não há ninguém para confirma-lo ou refuta-los seja “on the record” ou “off the record”.

O que poderiam ser informações úteis para a compreensão de todo o processo virou relato de sentimentos. “Nessas horas, tento ser bem racional, não diria “frio”, mas não sou do que extravasa sofrimento de imediato diante do pior”, escreve ele em um trecho.

Outro exemplo: “lembro de ficar sentado na beira da cama, em casa, ouvindo, sem uma reação exacerbada”. Escreve ele sobre a ligação que recebera da diretora jurídica do Grupo Estado informando sobre a decisão da empresa de, em um primeiro momento acabar com a Eldorado. “A ligação durou uns cinco munitos, mas não lembro de quase nada, a notícia ficou rebatendo dentro de mim”, acrescentou.

Uma informação preciosa que não consta do livro é como se chegou à Rádio Tropical cuja programação ocupava 107,9Mhz, como foi a negociação e detalhes do contrato, pelo menos aqueles que podem ser tornados públicos. E o acordo de patrocínio com a Porto limitou-se a descrição de um telefonema dado por Erick Bretas, CEO do Grupo Estado. Seria demais pedir isso, mas as não renovações de contrato dos locutores André Góis e Felipe Tellis passaram batido na obra.

Emanuel demonstra um certo orgulho quando escreve que a primeira notícia sobre o fim da rádio revelada pelo colunista Flavio Ricco no site Léo Dias em 22 de janeiro “não teve repercussão generalizada entre o público ouvinte, com raríssimas exceções”. Mais tarde, ele revelou ter ficado de “estômago embrulhado” com a notícia publicada pela Folha de S. Paulo no dia 23 de abril divulgando oficialmente o término das operações da Eldorado. Mais sentimentos.

Em, #VoltaEldorado Emanuel aproveita para homenagear de forma justa integrantes da equipe, seja de microfone ou de retaguarda, que ele dirigiu na primeira fase da emissora. A apresentadora Roberta Martinelli ganha um capítulo à parte e a história envolvendo a criação do nome de seu programa, Som a Pino, cuja estreia aconteceu em 2016, desperta um certo interesse.

Haisem Abaki, âncora do Jornal Eldorado, ganhou um perfil elogioso. “A notícia sobre o fim da Eldorado despertou um Haisem que eu não conhecia. Toda aquela aura zen-budista que conhecemos dele, sempre muito discreto, deu lugar a uma contundência combativa”. Em seguida, segue-se um relato da participação do apresentador na entrega do Prêmio APCA 2025, quando recebeu um troféu merecido de personalidade do rádio.

Mais homenagens, desta vez para dois músicos que se engajaram na campanha de retorno da rádio: Tulipa Ruiz e KL Jay. Emanuel manifesta em seu texto uma mágoa com o que ele considera um engajamento residual do restante da classe. “Fiquei entristecido (…) esperava mais”, escreveu (olha aí o sentimento de novo). Quem sabe, uma boa pauta a ser abordada em entrevistas no programa Fim de Tarde Eldorado, comandado pelo autor do livro ao lado de Leandro Cacossi.

O prefácio foi escrito por Paulo Lima, apresentador do Trip Eldorado e publisher da Trip Editora. Seu texto pode ser muito bem classificado como um ensaio que em muitos momentos chega a ser laudatório. Afinal, a ligação de Lima com a Eldorado é umbilical e seus esforços colaboraram muito para o retorno em 107,9Mhz.

O depoimento de Emanuel não é de todo desprezível. Pode ser um ponto de partida para outros relatos de dentro ou de fora. A história de redenção da Eldorado FM merece ser contada sob outros pontos de vista.

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