Relembre as onze finais de Copa do Mundo narradas por José Silvério

Por Rodney Brocanelli

Um dos gigantes da narração esportiva, José Silvério tem uma marca histórica em sua carreira: ele conseguiu narrar onze finais de Copa do Mundo nos estádios e por duas emissoras diferentes. Vamos relembrar então cada uma delas, com direito a histórias de bastidores e os registros dos gols (e pelo menos uma disputa dos tiros livres da marca do pênalti) narrados por ele de 1978 a 2018, seu último mundial, pela Bandeirantes. O narrador deixou a emissora do Morumbi em 2020. Teve uma brevíssima passagem pela Rádio Capital entre os meses de junho e setembro de 2021. Hoje, curte sua aposentadoria. Texto publicado em 2002 (veja aqui) e devidamente atualizado.

1978/Argentina – Foi a primeira Copa de Silvério pela Rádio Jovem Pan, na Argentina. Em outubro de 1977, ele substituiu Osmar Santos, que havia se transferido pela Rádio Globo. Seu prestígio na emissora era tamanho, que ele foi escalado pelo Seu Tuta para fazer a decisão do terceiro lugar, envolvendo Brasil x Itália e a grande final, entre os donos da casa e a Holanda. O que ninguém imaginava é que uma úlcera fosse atrapalhar a transmissão. “Eu narrei a final sangrando, literalmente”, disse ele em uma entrevista ao programa Sofá Bandeirantes. Por muitos anos, o registro desta final foi uma “lost midia”, termo que é muito usado para a memória de televisão, mas que pode ser aplicado ao rádio. Em 2024, ele foi divulgado pelo jornalista .Thiago Uberreich ( a quem agradecemos pela cessão deste áudio).

1982/Espanha – Era uma final em que o Brasil deveria estar. Pelo menos essa era a expectativa de quase 120 milhões de brasileiros e outros milhares de admiradores do futebol espalhados pelo planeta. A seleção comandada por Telê Santana, apesar de alguns defeitos, encantou a muitos. Só não estava no script a eliminação na partida contra Itália. Bastava apenas um empate, mas o talento de Paolo Rossi e a disciplina tática dos outros jogadores da Azzurra acabaram com o sonho brasileiro. Depois de eliminar a Polônia na semifinal, os italianos se classificaram para a grande final com a Alemanha. Silvério esteve lá pela Jovem Pan e sem incidentes desta vez. Placar final: 3 a 1 Itália. Ouça abaixo.

1986/México – Telê Santana novamente comandou a seleção brasileira, com remanescentes da Copa anterior e uma nova geração que surgiu neste período de quatro anos. O começo da campanha não empolgou muito, mas o Brasil avançou para a fase de mata-mata, que voltou a ser implantada após uma pausa em 1974. Nas quartas-de-final, a seleção brasileira foi eliminada nos pênaltis pela seleção francesa. Enquanto isso, um personagem emergia: Maradona. Com gol de mão, gol de placa e uma técnica acima da média, ele colocou a Argentina na final. Por outro lado, a Alemanha também chegou para a disputa do título, repetindo 1982. Placar final: Argentina 3 a 2. Ouça abaixo.

1990/Itália – A Copa marcada pelo início da Era Dunga. Sob o comando de Sebastião Lazzaroni, a seleção brasileira apresentou um futebol que não despertou suspiros. Para piorar, houve problemas com dinheiro de patrocinador, o que fez com que os jogadores convocados não contassem com muita simpatia, sendo considerados mercenários. Mais uma vez quem brilhou foi Maradona. Na partida eliminatória da Argentina contra o Brasil, mesmo cercado por três jogadores, o camisa 10 argentino conseguiu dar um passe para Caniggia fazer o gol da classificação. Os argentinos ainda desclassificaram os donos da casa e chegaram à final. Do outro lado, adivinhem, a Alemanha. Depois de dois revezes, havia chegado a hora dos alemães ficarem com o título. Placar final: 1 a 0. Ouça abaixo.

1994/EUA – Temos aqui a sequência da Era Dunga, com remanescentes da copa anterior. Apesar da desconfiança que surgiu no período das eliminatórias, a seleção brasileira foi crescendo na hora certa (e vale o clichê aqui). Carlos Alberto Parreira talvez tenha feito o seu melhor trabalho como técnico. Romário foi um dos destaques. Outro foi justamente Dunga, execrado após o fracasso na Itália. E por falar no país da Bota (sdds. Silvio Lancellotti), a seleção brasileira enfrentou a seleção italiana na grande final. Uma repetição da decisão de 1970. Silvério estava lá. Pena que o jogo em si não tenha sido a altura de tanta tradição e de tanta coisa envolvida. Mesmo assim, não deixou de ser um marco histórico para o narrador. Ouça abaixo a decisão por tiros livres da marca do pênalti,

1998/França – O período de antecedeu esta Copa foi marcado pela ascensão de Ronaldo. Jogando no futebol europeu, ele se transformou em fenômeno com seus gols impressionantes. Isso fez com que ele se transformasse em uma referência para a seleção brasileira. O time treinado por Zagallo tinha atletas das duas campanhas anteriores e jogadores que já mereciam estar no elenco de 1994. A campanha em si teve altos e baixos, com uma derrota para a Noruega na fase de grupos. Parecia que faltava alguma coisa na seleção brasileira. Mas isso não impediu a chegada em sua segunda final seguida. O adversário era a dona da casa, que tinha uma seleção bem montada. Além da derrota do Brasil para a França, ficou marcado todo o bastidor envolvendo Ronaldo, que passara mal horas antes da final. Até hoje ninguém tem uma explicação definitiva para o que aconteceu. Zidane, que não teve nada a ver com isso, fez dois gols de cabeça. Placar final: 3 a 0. Ouça abaixo.

2002 Coreia-Japão – Mais uma vez a seleção brasileira vive quatro anos de trancos e barrancos. Wanderley Luxemburgo, que começou o ciclo, não permaneceu e foi sucedido por mais dois profissionais (Candinho por um jogo só e Émerson Leão) até a chegada de Luiz Felipe Scolari. Enquanto isso, Ronaldo enfrentava seus problemas. Uma lesão patelar deixou em dúvida até mesmo a sua continuidade no futebol. No entanto, ele se recuperou a tempo e as coisas deram certo na hora certa. De contestado, ele passou à heroi. O Brasil cresceu na competição (olha aí o clichê de novo) e chegou à final sem ser derrotado ou empatar alguma partida. O oponente seria a Alemanha. José Silvério acabara de passar por uma mudança radical em sua carreira. Aproximadamente dois anos antes, ele trocou a Jovem Pan pela concorrente Rádio Bandeirantes. Mal sabia ele que havia feito uma boa escolha. A Pan decidiu não transmitir aquele mundial e fazer uma cobertura alternativa. Silvério esteve presente em todos os jogos do Brasil e pode enfileirar uma série de narrações inesquecíveis diretmanete dos estádios. Placar final: 2 a 0. Ouça abaixo.

2006 – Alemanha – Essa aqui foi a Copa do oba oba para a seleção brasileira. Muitos craques, mas pouquíssimo foco, em especial no período de treinamento. Havia uma nova geração pedindo passagem, mas o que fazer com os craques que vinham dando tão certo nos anos anteriores? Carlos Alberto Parreira não conseguiu solucionar essa questão e o Brasil caiu ainda nas oitavas para a França em uma noite inspiradíssima de Zidane. Silvério fez a sua segunda Copa pela Bandeirantes e ele começava a viver um drama pessoal, com a doença de sua primeira esposa, Sebastiana de Andrade. No ano anterior, o Grupo Bandeirantes colocava no ar a Band News FM, emissora com 24 horas de notícias. A caçula entrou em rede com a Bandeirantes e com isso, as irradiações de Silvério foram mais longe, com outras emissoras que compunham a rede. Itália e França disputaram a grande final, que passou à história não pelo título (mais um) da Azzurra, mas pela cabeçada de Zidane em Materazzi.

2010 – África do Sul – Depois da bagunça, a quase ditadura. A CBF resolveu inovar e alçou ao comando da seleção brasileira o ex-jogador Dunga. A ideia até que era interessante, mas o temperamento do agora treinador não ajudou em nada. Apesar dos títulos na Copa América e da Copa das Confederações, a campanha no Mundial não mostrou qualquer brilho. Para piorar, a indisposição de Dunga com parte da imprensa serviu para que ele angariasse ainda mais antipatia. O Brasil caiu nas quartas com a derrota para a Holanda, que chegaria a final 32 anos após ser batida pela Argentina, em 1978. Do outro lado estava a sensação Espanha. Os espanhóis venceram na prorrogação. Mais uma vez a parceria com a Band News foi repetida. Aquela foi uma Copa fria, não pelos jogos em si, mas pelo fato de seu período de competição coincidir com uma fase de baixíssimas temperaturas naquele país. Isso não afetou Silvério que esteve presente na decisão. Placar final: 1 a 0. Ouça abaixo.

2014/Brasil – Sediar uma Copa do Mundo quase virou um pesadelo para o país do futebol. Um ano antes, às vésperas da Copa das Confederações, protestos começaram a pipocar por diversas partes. A Fifa ficou preocupada por muito pouco o torneio não aconteceu em outro lugar. A seleção brasileira chegou a esta competição sob comando duplo: Luiz Felipe Scolari como treinador e Carlos Alberto Parreira como coordenador. Eles chegaram para substituir Mano Menezes, que fizera um trabalho irregular. À medida em que os jogos aconteciam, a tensão aumentava entre os jogadores brasileiros. Não por fatores externos, mas porque, conforme o jornalista Paulo Vinícius Coelho, ninguém queria cometer erros que pudessem tirar a seleção dos trilhos. Isso ficou mais visível na partida contra o Chile, na qual a classificação só veio na disputa dos tiros livres. Para piorar as coisas, uma grave contusão afastou Neymar na parida das oitavas contra a Colômbia. Não foi uma Copa fácil para Silvério. Durante a transmissão da partida contra Colômbia, ele ficou sem voz e teve de dar lugar a Ulisses Costa. E depois, já recuperado, ele irradiou a derrota para a Alemanha na semifinal pelo placar de 7 a 1, talvez o maior desastre brasileiro na história das Copas. Na outra perna, a Argentina, de Messi, foi tirando de cena os oponentes para chegar à grande final no Maracanã. Quem brilhou foi um jovem atleta, Mario Götze, que fez o gol solitário daquela partida. Placar final: 1 a 0. Ouça abaixo.

2018/Rússia – Mais uma mudança no comando técnico. Dunga era trazido de volta pela CBF. Se em 2010 era uma inovação, o ato foi conservador, desta vez. Mas infelizmente, a jogada não deu certo. O futebol apresentado era paupérrimo, especialmente nas eliminatórias, apesar da continuidade do protagonismo de Neymar. Houve uma mudança de rumo e Tite veio para ajustar as coisas. Se o Brasil deu esperança aos torcedores durante o período pré-Copa, na competição em si novamente o futebol, mais uma vez, não empolgou. Alguns jogadores renderem aquém do esperado. Neymar ficou marcado por suas simulações espalhafatosas, que foram ridicularizadas nas redes sociais. Enquanto Brasil ficava pelo caminho, a França, de Mbappé, e a Croácia, de Modric, chegavam à decisão. Era a décima-primeira Copa de José Silvério, um recorde pessoal. Diferente das outras, a partida final foi empolgante, com seis gols. Os frances conquistaram seu segundo título. Pouco depois do apito final, emocionado, ele disse “cumpri”. Antes de passar o comando da jornada para Milton Neves, ele complementou: “são onze Copas do Mundo transmitidas na final do estádio. Um marco. Obrigado, você ajudou muito. Tchau”. Placar final: 4 a 2. Ouça abaixo.

Memória: o dia em que Ferreira Netto foi salvo por João Carlos Albuquerque em plena ditadura argentina

Por Rodney Brocanelli

João Carlos Albuquerque, conhecido do grande público pelo seu trabalho como apresentador nos canais ESPN, praticamente salvou o jornalista Ferreira Netto de ser preso pelos militares na Copa do Mundo de 1978, sediada na Argentina. João Canalha, como é carinhosamente chamado pelo público e amigos, contou essa história em entrevista ao Music Thunder Vision, podcast comandado por Luiz Thunderbird, músico e ex-VJ da MTV.

Ferreira e João Carlos estavam trabalhando juntos na cobertura daquele mundial pela mesma emissora, a Rádio Capital. Na época, ela era dirigida por Hélio Ribeiro. A Capital contava com nomes importantes do rádio esportivo da época: Jota Junior (não o narrador que recentemente deixou o Sportv, mas um profissional que teve muito destaque nas cidades de Belo Horizonte e Goiânia), Alfredo Orlando (ex-Tupi, de São Paulo), Ávila Machado, Marco Antônio Mattos (que se notabilizou por narrar vôlei na TV Bandeirantes), entre outros.

A Capital ainda contava com Dulcídio Wandeley Boschila, na época árbitro de futebol, que atuou como o “juíz do juíz”. Na época, o termo “comentarista de arbitragem” não estava popularizado, algo que aconteceu a partir do final dos anos 1980. Outro nome de destaque era o de Edson Leite, narrador histórico da Rádio Bandeirantes. Neste mundial, ele atuou como analista. Ferreira fora contratado para fazer uma cobertura extra-campo, um repórter especial.

A seleção brasileira de futebol estava às vésperas de enfrentar a seleção da argentina na cidade de Rosário. Aquela partida ficou conhecida depois como a “Batalha de Rosário”. Parte da equipe da emissora paulistana fez o deslocamento de trem, devido às más condições de tempo: João, Ferreira e o saudoso operador Laureci Calheiros.

Devidamente instalados na cidade, João ficou no hotel reservado pela emissora, enquanto Ferreira Neto e Laureci foram para o local onde estava hospedada a delegação do Brasil. O esquema da Capital previa boletins ao vivo a cada 15 minutos (coisas de Hélio Ribeiro).

Tudo pronto, o boletim entrou no ar, comandado por João. Ele chamou Ferreira, que começou a falar até a comunicação ser interrompida. O apresentador assume novamente, lê algumas notas e encerra a transmissão.

Pouco depois, Laureci contata João e revela o que houve. Um coronel do Exército argentino havia proibido (sabe-se lá com qual autoridade) transmissões ao vivo, por um pedido da própria seleção brasileira. Tentou-se então uma alternativa. O gerente do hotel liberou o uso de um telefone de seu escritório. Novamente a transmissão é interrompida.

Conforme o relato de João ao podcast, ele ficou sabendo depois, por Laureci, que o tal coronel entrou na sala e arrancou o fio de telefone da parede e jogou o aparelho em um canto da sala. Ferreira Netto não se conteve e partiu para a briga com o militar.

Outros dois soldados foram chamados para prender Ferreira. Mais confusão. A essa altura, os jornalistas brasileiros entraram em cena agindo como a famosa “turma do deixa-disso”. Flavio Adauto, que também estava no hotel, conseguiu falar com o colega, alertando-o para o fato de que estavam sob a ditadura militar da Argentina. “Os caras vão sumir com você”, disse.

Laureci e Ferreria conseguiram deixar o local e foram para o hotel em que estavam hospedados. Quando chegaram, João estava no ar com mais um boletim. Ferreira, transtornado, quase sem ar, toma o microfone e começa a protestar: “Eu sabia. Eu sabia que eles iam mostrar a cara, a qualquer momento. A máscara ia cair. Queriam me levar para o esquisito! Caiu a máscara da ditadura argentina”. Esse esquisito pode ser um local de tortura.

João pegou o microfone de volta, encerrou o boletim e tomou uma decisão. Pediu que a dupla ficasse no quarto, enquanto descia até o saguão do hotel. Chegando lá, ele encontrou Fernando Solera, então narrador da TV Bandeirantes, discutindo com as funcionárias do hotel por causa de problemas nas reservas. Dois brucutus (segundo o relato) e queriam levar Solera. Mais confusão.

O apresentador então deixou o hotel, pegou um táxi e pediu para ir até o consulado do Brasil na cidade. Chegando lá, (era um sobrado) subiu uma escada, viu uma secretária e pediu para encontrar com o cônsul . Não houve tempo para uma conversa no local. Ambos foram diretamente para o hotel e o caso foi explicado pelo caminho.

Na chegada, João e o cônsul (cujo nome não foi revelado) foram abordados por duas pessoas de terno, que se identificaram como policiais federais e com ordem para não deixar ninguém de fora entrar, uma vez que eles eram responsáveis pela segurança.

Na base da conversa, tudo foi se explicando. Ferreira e Laureci foram orientados a descer do quarto, até porque o cônsul estava lá para amortecer o impacto dos acontecimentos daquele dia. O jornalista conversou com os federais. João não chegou a contar o desfecho em que ele teve uma participação decisiva, mas subentende-se que tudo terminou sem consequências para os principais envolvidos.

Ferreira Netto ficou conhecido por apresentar programas de debates políticos nos finais de noite na televisão. Teve passagens pela Tupi, Record, SBT, Bandeirantes, Gazeta, Manchete e CNT. Em rádio, esteve nas rádios Excelsior, Gazeta e Trianon. Chegou a ser candidato ao Senado, por São Paulo, nas eleições de 1990, pelo PRN, então partido do ex-presidente Fernando Collor de Melo. Perdeu a vaga para Eduardo Suplicy, do PT. Morreu em 2002, aos 63 anos.

Laureci Calheiros foi técnico de externa em diversas emissora de rádio em São Paulo. Nos últimos anos de sua vida, prestou serviços para a Rádio Transamérica. Morreu em 2019, com 74 anos.

Veja abaixo o depoimento de João Carlos Albuquerque.

Guarani, campeão brasileiro de 1978. Narração de Fiori Gigliotti

Por Rodney Brocanelli

Neste sábado, o Guarani comemora o 33º aniversário de seu primeiro (e único até aqui) título de campeão brasileiro. Vamos relembrar a narração de Fiori Gigliotti, na Rádio Bandeirantes, para o gol de Careca. Reportagens de Roberto Silva, o Olho Vivo. Ouça no player abaixo.