Começou a novela da migração do AM para o FM

Por Marcos Lauro

Começou a novela da migração do AM para o FM

A presidente Dilma Rousseff assinou nesta quinta-feira, 7/11, o decreto que permite às emissoras de rádio AM migrarem para a faixa do FM.

O discurso, comprado sem questionamentos por boa parte da imprensa, é bonito: com a ida pro FM, as rádios poderão ser ouvidas em dispositivos móveis e terão qualidade do sinal melhorada.

Mas penso que vale ressaltar as questões que vão tornar essa medida uma longa novela, assim como a tal digitalização do FM. Até hoje, não temos acesso, como consumidores, aos receptores digitais, que ainda são caros. Hoje, por exemplo, ainda é impossível ouvir as transmissões paralelas que eram tão valorizadas pelos defensores da digitalização. Isso já acontece na TV, onde é possível sintonizar até três transmissões em um único canal (5.1, 5.2 e 5.3, por exemplo).

O equívoco da migração já começa na faixa em si. Para se tornar uma FM, uma rádio vai gastar cerca de R$ 85 mil para trocar todo o seu parque técnico. Além disso, a emissora vai precisar pagar pela nova concessão de FM.

As novas FMs serão alocadas entre 76 e 88 Mhz, ou seja, antes da faixa que é coberta por qualquer receptor FM vendido no mercado. Ou seja, entraremos de novo na questão de novos receptores. Serão baratos e acessíveis tanto quanto os que são vendidos hoje? Que rádio vai querer migrar para uma freqüência que não se ouve ainda?

O ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, afirmou que as rádios terão um prazo de oito meses a um ano para optar pela migração. Enquanto isso, as indústrias terão cinco anos de prazo para se adaptar e produzir rádios FM que comecem em 76 Mhz. Até lá, a rádio que migra corre o risco de operar para ninguém ouvir. Não faz sentido. E os aparelhos importados, que começam em 88 Mhz? Terão sua venda impedida ou as novas FMs serão prejudicadas?

Outra fala que faz menos sentido ainda é a do presidente da Abert, associação que defende (ou deveria defender) as emissoras de rádio e TV. Daniel Slaviero afirmou que a migração é “o fato mais relevante para o rádio AM nos últimos 50 anos”. Quer dizer que acabar com uma faixa é o fato mais relevante para ela nos últimos tempos?

A desculpa de que o dial de São Paulo não tem mais espaço é balela. Que tal a ANATEL receber pessoal suficiente para correr atrás das rádios piratas? Hoje, para se denunciar uma rádio clandestina, você preenche um formulário que pede até o endereço da emissora, como se fosse uma informação fácil para se conseguir. Sem as piratas e com transmissores bem ajustados e fiscalizados, é possível acomodar, sim, as rádios que optarem por migrar do AM para o FM. Mas quem teria o interesse de misturar as emissoras dessa forma, não?

Infográfico: O Estado de S. Paulo