Eldorado, a rádio de cinco vidas

Estúdio da Rádio Eldorado, em São Paulo

Por Marcos Lauro

O mercado do rádio foi pego de surpresa nessa quinta-feira (23/4) com a notícia do encerramento das operações da Rádio Eldorado, uma das marcas mais tradicionais do dial paulistano. Criada em 1958 no AM, ganhou sua versão FM em 1973 e também foi gravadora, estúdio (o mais moderno da América Latina, à sua época), distribuidora de discos e tantos outros braços e projetos que fizeram história.

Mas, na verdade, o mercado não foi pego tão de surpresa assim. É histórico o problema na administração da emissora e o sucateamento que a rádio vinha sofrendo dentro do Grupo Estado. Executivos que nem sabem o que é rádio tinham poder e tomavam decisões atrapalhadas. E os que sabiam o que é rádio, viviam num jogo duplo trabalhando com arrendamento e venda de frequências. Muitas vezes esse descaso foi reproduzido no ar, com coordenadores artísticos preguiçosos e que tinham objetivos pouco gloriosos – um deles passava o dia editando músicas, ele mesmo, para que elas não tivessem mais de três minutos. Clássicos foram mutilados nesse triste período.

Tirando esses percalços do dia a dia, foram pelo menos cinco atentados à marca Eldorado nesses 68 anos de história – o que só mostra a força do que foi construído. Existiram outros “crimes” contra a Eldorado, mas esses foram os mais graves:

  • Saída de João Lara Mesquita – em 2003, o Conselho do Grupo Estado decidiu que toda a família Mesquita teria de ser retirada dos cargos de direção. Com isso, João Lara, que formatou a Eldorado como conhecemos – tirou a rádio da música clássica e colocou no universo pop/adulto contemporâneo – foi afastado da emissora sem que nenhuma diretriz fosse dada para quem continuou. Com cada um pensando uma Eldorado diferente, seguiu-se uma série de desencontros e a rádio sofreu uma queda de qualidade considerável. Tenho dezenas de críticas a esse modelo de rádio patriarcal e familiar, assim como a gestão de João Lara também não foi perfeita (com direito a processos trabalhistas e outros enroscos), mas, na Eldorado, funcionou. Só falamos da Eldorado até hoje por causa desse período;
  • Mudança da Aclimação para a sede do Grupo Estado – nos estúdios da rua Pires da Mota, a rádio Eldorado vivia seu próprio universo, com autonomia, quase que como uma rádio independente – uma continuação do clima dos estúdios anteriores, na Major Quedinho. A ida da Eldorado para a sede do Grupo Estado, no Bairro do Limão, mergulhou a rádio na confusão burocrática que é o Estadão. Afetou o dia a dia com problemas que iam do transporte nas viaturas do grupo para a realização de pautas externas até o próprio acesso ao estúdio – foram incontáveis os casos de convidados “barrados” na fria portaria da Celestino Bourroul, que tinham que ser resgatados por alguém da equipe;
  • Criação da Rádio Estadão ESPN e mudança da Eldorado para os 107,3 Mhz – em março de 2011, um dos golpes mais duros na história da Eldorado com sua mudança de frequência para dar lugar ao projeto da Rádio Estadão ESPN. Ouvintes ficaram perdidos e muitos desistiram de encontrar a rádio novamente no dial. Foram muitos os relatos de gente que, cinco, seis, até sete anos depois da mudança, ainda não sabiam que a Eldorado existia numa frequência diferente;
  • Arrendamento dos 92,9 Mhz e posterior venda – se ainda existia alguma esperança de que o Grupo Estado se importava com a marca Eldorado, em março de 2017 veio a certeza: não. Com a cessão dos 92,9 Mhz para uma igreja (clichê!), morriam as chances de reviver a marca com a potência e o alcance que ela sempre teve, impossibilitando a volta da emissora para a frequência original;
  • Mudança dos 107,3 Mhz para uma frequência do FM estendido e posterior desistência – desde o fim de 2025, uma consulta pública no site da ANATEL avisava sobre o interesse da Rádio Bandeirantes em trocar de lugar no dial com a Fundação Brasil 2000, dona da concessão dos 107,3 Mhz. A Band ficaria com a frequência, enquanto a Fundação e, consequentemente, a Eldorado, iriam para 86,3 Mhz, uma frequência do FM estendido e que pouca gente tem nos aparelhos, que costumam começar o dial perto de 88 Mhz. A consulta pública se tornou realidade, mas o Grupo Estado e a Fundação Brasil 2000 preferiram encerrar a parceria de ocupação da frequência e, com isso, assinar o fim da rádio Eldorado no dial de São Paulo.

Após a quinta morte, o Grupo Estado ainda cogita manter algumas marcas da Eldorado como projetos especiais. Infelizmente, parece ser apenas um consolo para ouvintes e profissionais, como todas as grandes empresas fazem quando anunciam o fechamento de algo com um legado tão grande – vimos isso na Abril, quando algumas marcar permaneceram no ar por pouco tempo e logo caíram.

O fim da Eldorado não é pelo cenário pós-pandemia ou pelo crescimento do streaming, como o grupo tentou dizer. O fim da Eldorado é resultado de incompetência e desinteresse, apenas isso. Assim como na fundação de uma rádio, os nomes dos responsáveis são citados e gravados para história, os nomes dos executivos do Grupo Estado tinham que ser gravados para a posteridade nesse fim de emissora.

107,3 FM, a ex-Brasil 2000, pode virar Eldorado FM

Por Rodney Brocanelli

Caso se confirme a notícia que o jornalista Anderson Cheni publicou em seu blog, a 107,3FM (a ex-Rádio Brasil 2000 FM) vai sair do ar. A frequência seria incluida em um pacote de mudanças promovido pelas emissoras de rádio do Grupo Estado: Eldorado AM e FM. Ambas irão transmitir a mesma programação e mudarão de nome, passando a se chamar Estadão/ESPN.

A ESPN obviamente cuidaria do esporte neste novo projeto. João Palomino é um dos responsáveis por sua implantação.

Com isso, a 107,3FM ira receber a programação da Eldorado FM que hoje é veiculada nos 92,9FM.

A Eldorado FM de hoje tem um público cativo e, mais importante, anunciantes. Este fator provavelmente pesou muito na decisão de se migrar a rádio para os 107,3Mhz.

A frequência em 107,3Mhz se transformou num “objeto de desejo” nos últimos anos. Nos últimos anos, ela foi envolvida em inúmeras negociações que não deram certo. O Grupo Bandeirantes a queria para lançar seu projeto de uma rádio 100% esportiva. A Rede Transamérica cogitou usa-la para colocar no ar a sua portadora Hits. Até mesmo um grupo independente tentou dar início a um projeto de rádio para crianças, chamado de Playground FM.

Essa mudança pega a 107,3FM bem no momento em que a emissora passava a ganhar uma identidade, com a criação de novos programas e reinauguração de seu site. Até há bem pouco tempo, a rádio tinha se transformado em um vitrolão rock and roll.

Jazz virtual

Por Marcos Lauro

Assim como acontecia na Folha de S. Paulo durante a década de 1990, com o Luis Nassif, no Estadão é possível ler sobre música na seção de economia.

Neste domingo, Ethevaldo Siqueira publicou um verdadeiro guia sobre o jazz na internet: onde e como ouvir, principais artistas… dicas preciosas para os amantes do ritmo norte-americano.

“Curtindo jazz na internet” pode ser acessada nesse link.