Gaby Amarantos sofre censura, Nova Brasil se desculpa e apresentadora se explica

Por Rodney Brocanelli

Um dos assuntos mais palpitantes deste sábado foi protagonizado pela cantora Gaby Amarantos. Em uma rede social, ela demonstrou seu total desconforto e incredulidade com um episódio ocorrido na entrevista que concedeu ao programa Radar, da Rádio Nova Brasil FM, apresentado por Lorena Calábria e Roberta Tiepo.

A cantora está concorrendo ao Grammy Latino, uma das mais prestigiosas premiações do mundo da música pelo seu trabalho mais recente, intitulado TecnoShow, daí o convite para a entrevista.

Tudo caminhava bem até que no final do bate papo, a própria Gaby foi convidada a anunciar uma música sua: “Tic Tac do Meu Coração”. O grande problema é que ela não faz parte de TecnoShow. A canção eternizada por Carmen Miranda foi regravada para a trilha da novela “Além da Ilusão”, da TV Globo.

No vídeo divulgado por Gaby ela relata que um produtor teria dito a ela usando linguagem verbal e gestual que o público da emissora era “elevado”.

Como não poderia deixar de ser, o caso (que pode ser nomeado como censura) gerou muita indignação, com fãs da cantora criticando a postura da emissora, representada pelo seu produtor, que não teve o nome revelado até agora.

A Nova Brasil usou seu Instagram e divulgou um texto em que pede desculpas à cantora: “Gaby Amarantos, ERRAMOS! Erramos com você e com nossos ouvintes. Faltou educação, faltou delicadeza, faltou escuta e senso artístico”. Só não foi explicado se alguma providência foi tomada em relação ao produtor que voluntariamente ou não provocou essa celeuma (talvez ele estivesse cumprindo ordens “de cima”).

Também pelas redes sociais, Lorena Calábria se manifestou. A apresentadora iniciou fazendo um apanhado de sua carreira, listando as emissoras de televisão pelas quais passou e textos que escreveu para publicações e livros

Em seguida ela falou sobre seus trabalhos. Um deles, não-remunerado, é em seu canal no YouTube. O outro é para o projeto Três Selos, que em resumo vem lançando e relançando grandes discos de artistas da música brasileira, e o que ela tem feito na Nova Brasil.

“No Radar, eu sou a locutora, divido a apresentação com a Roberta Tiepo, e as entrevistas também, e sou responsável pela pauta”, disse. “Não sou responsável pela programação musical (….) Eu posso sugerir uma música? Posso. Posso sugerir também um convidado, mas isso tudo é submetido a aprovação da direção”, complementou.

Lorena prosseguiu: “Foi muito bom ela (Gaby) ter se manifestado. É importantíssima essa colocação dela, assim como é importante essa reinvindicação feita pelos fãs”.

No final, a apresentadora faz um pedido: “Eu gostaria muito que toda essa movimentação ela não fosse só direcionada pra Nova Brasil. Que ela se estendesse também a outras rádios que tocam música brasileira. Porque é muito bacana tocar a música de um determinado artista em um programa específico. Mas a música brasileira é tão rica e tão diversa que ela merece ocupar muito mais espaço”.

Lorena ainda explicou o motivo pelo qual comanda um programa em uma emissora na qual no tem ela não qualquer interferência na programação musical. “Eu acredito que é um pouco mais fácil você mudar a estrutura quando você tá dentro dela”, afirmou.

Depois, ela contou um caso de quando ela fez parte da equipe do Clip Clip, programa de vídeo clipes que a Globo veiculou em meados dos anos 1980 e que era dirigido por Boninho. Lorena sugeriu um quadro para falar de lançamento de discos, muitos deles independentes. Diante da negativa do diretor, justificando que não havia ninguém para redigí-lo, ela se ofereceu para fazer essa parte e a ideia foi adiante.

“Essa batalha minha é antiga, ela não começou agora. Enquanto eu tiver forças e disposição, eu vou continuar insistindo. Quando tiver uma brecha, uma oportunidade e conhecimento, eu vou continuar insistindo”, falou.

Rádio sob demanda

O relativo sucesso de Gaby Amarantos ajuda a explicar como o rádio popular funciona hoje

Por Marcos Lauro

Gaby Amarantos - Foto: divulgação

O rádio parou de ditar as regras do que é ou não sucesso lá pelos anos 1990, quando a internet tomou esse posto. Antes, o que tocava no rádio era sucesso. Isso explica o desespero pelo jabá, das duas partes. A gravadora queria seus artistas no ar (porque se não estivesse lá não era sucesso) e a rádio queria faturar em cima das grandes empresas que lançavam seus artistas com pouca preocupação com as verbas de divulgação.

Isso acabou. E com o fim desse processo, chegou ao fim também esse grande termômetro do que era ou não sucesso. Hoje, como se mede o sucesso? Como saber se um artista conquistou ou não a massa, o povão?

Por incrível que pareça, um desses caminhos ainda é o rádio, só que de uma maneira diferente. Hoje o rádio funciona “sob demanda”. Se existe um artista que estoura na internet e alcança a massa, o rádio, para não ficar descolado da realidade, vai atrás. O último grande exemplo disso foi o cantor coreano Psy, que bateu todos os recordes de visualizações no YouTube com sua “Gangnan Style” e as rádios, especialmente as jovens, tiveram que comprar o single no iTunes para colocar no ar. Não teve como correr. Até hoje toca Psy em festinhas de aniversário de crianças por aí… já presenciei algumas e, sim, é sucesso!

Mas isso, claro, ainda deixa a dúvida no ar: afinal, o que é sucesso hoje? Como medir se o artista faz sucesso num determinado nicho ou se, realmente, já alcançou o povão e tem suas músicas cantadas dos botecos das periferias às festas dos grandes centros?

Um exemplo nacional: Gaby Amarantos. Vinda da periferia de Belém, a paraense surgiu no circuito de aparelhagens, festas extremamente populares nas periferias da capital do Pará. A partir disso, houve a tentativa de levar esse som tão característico do norte para outras regiões do país. Hoje, Gaby Amarantos aparece com frequência na Globo (e em outros canais), mas parece não deslanchar. Juízo de valor está longe desse texto, a discussão não é se é bom ou ruim. Mas: faz sucesso ou está represada num nicho de gente descolada e bem informada?

Uma forma de responder isso é o rádio (sob demanda). Costumo ouvir rádios populares com uma certa frequência e nunca ouvi nada da Gaby Amarantos nelas. Ou seja, não existe demanda, não existe uma massa ligando na rádio e pedindo a música (sim, isso ainda acontece!). Ocorre com Gaby Amaratos uma espécie de “pretagilização”, que é como chamo o processo de uma artista estar semanalmente na tela da maior rede de TV do país e não conseguir sair de lá. As pessoas vêem, acham “exótica” e no dia seguinte estão se perguntando: “quem é essa menina mesmo?”.

Talvez o som de Gaby Amarantos seja muito modernoso para as rádio populares, muito popular para estar nas rádios jovens e muito jovem para estar nas rádios de música brasileira. E, com isso, sua música não se encaixa em nenhum nicho e não ganha a massa, o povão. Fica no ar esse sucesso vazio, relativo, que deixa dúvidas sobre sua efetividade.

Claro que isso não inviabiliza sua carreira. Diversos artistas fazem sucesso apenas em alguns determinados nichos e vivem muito bem com isso. Um tipo de música que domina a periferia de Belém obviamente não foi feita com a finalidade de agradar aos ouvidos do sudeste ou de outras regiões… caso aconteça, melhor para a cantora e para toda a cena que a acompanha.

Agora, será que o rádio está condenado a viver sob demanda? Claro que competir com a internet não compensa e bater de frente seria uma atitude suicida, mas o rádio precisa ser aliado nesses tempos de YouTube, iTunes e Deezer. Se as rádios populares experimentassem tocar Gaby Amarantos, a massa compraria a ideia? Fica o desafio.

Foto: divulgação