Memória: conheça a história da Rádio Monte Carlo FM, uma rádio clandestina da Vila Mariana

Por Rodney Brocanelli

Nos anos 1980, uma rádio clandestina e de alcance bem restrito operou em 95,7Mhz, na cidade de São Paulo. A Rádio Monte Carlo transmitia a partir do bairro da Vila Mariana e não ia muito longe. Apesar de tudo isso, ela tinha lá seus ouvintes. Aproximadamente dez anos depois, Reinaldo Ferreira, seu proprietário (por assim dizer) contou a história dessa emissora em uma entrevista. O detalhe curioso é que o papo aconteceu em uma outra emissora clandestina, a Rádio Onze, também uma rádio clandestina, no carnaval de 1997. E um detalhe ainda mais curioso: o apresentador do programa era eu. Participou também dessa entrevista Chico Lobo, um nome muito presente na história das rádios piratas. O registro tem muito ruído de cadeiras, etc, mas não deixa de ser um documento daquilo que pode ser considerado o lado B das rádios em São Paulo. Espero que seja dado um devido desconto ao entrevistador, que ficava falando em cima do entrevistado quase toda hora.

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Memória: reportagem sobre rádios piratas na Globo na década de 1990

Por Rodney Brocanelli

Há alguns posts abaixo, publicamos aqui uma reportagem da TV Cultura na metade da década de 1990. Agora é a vez de trazermos aqui neste espaço uma matéria veiculada na Rede Globo, cuja autoria é do repórter Marco Antônio Uchôa (precocemente morto em 2005). Nela, são mostradas emissoras que na época operavam em lugares distantes da periferia de São Paulo. Em muitos dos casos, elas até se transformavam na voz da comunidade. Outro aspecto abordado é a relação comercial. A reportagem mostra o exemplo de uma emissora em que o programador tinha de pagar pelo horário a ser ocupado na grade de programação. A exemplo do anterior, esse vídeo tem problemas de sincronia com o áudio, mas novamente nada que prejudique a compreensão. Agradeço novamente ao dexista Sergio Partamian por mais esse registro precioso.

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Memória: uma reportagem sobre rádios piratas exibida pelo Vitrine, em 1995

Por Rodney Brocanelli

Em 1995 (portanto há dezenove anos), o programa Vitrine, da TV Cultura (SP), então apresentado por Maria Cristina Poli, veiculou uma reportagem sobre o movimentos de rádios piratas que teve uma grande explosão na metade da década de 1990. O repórter James Capelli (hoje sumido) visitou três emissoras que operavam em São Paulo, em diferentes pontos da cidade: Conexão, a Free e a Onze. A primeira procurava dar espaço os problemas do bairro, além de dar vez a pessoas que nunca tiveram experiência em rádio. A segunda era uma emissora ligada a igrejas. Já a terceira, era uma experiência que misturava pessoas ligadas ao Centro Acadêmico da Faculdade de Direito da USP e moradores do centro de São Paulo. Na ocasião a reportagem divulgou que o governo da época (FHC) iria enviar ao Congresso uma lei para regulamentar essas rádios sem concessão. Depois de muito tempo e muita discussão, saiu a lei das rádios comunitárias. Eu sou um dos personagens desta reportagem. Apareço da metade para o final, no espaço dedicado à Rádio Onze, operando pick up e até dando um depoimento pessoal. Tirando esse lado pessoal, vale como um registro de um momento em que para cada espaço vazio no dial, existiam até três emissoras clandestinas operando. O vídeo vai ter um problema de sincronia com o áudio, mas nada que comprometa sua compreensão. Agradecimentos especiais ao dexista Sergio Partamian pela recordação.

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Coisas para se envergonhar: uma rádio pirata operava num evento internacional, no Rio de Janeiro

Por Marcos Lauro

Está acontecendo no Rio de Janeiro a Cúpula dos Povos. Para resumir: é um evento pré-Rio+20. Antes dos Chefes de Estado discutirem sobre meio ambiente e sustentabilidade, revivendo a ECO92 de vinte anos atrás, o terceiro setor, em nível mundial, debate sobre esses temas.

Para amplificar essas discussões, foi montada a Rádio Cúpula dos Povos no Aterro do Flamengo. Ouvi, pela web, por alguns minutos, em dias diferentes, e tinha uma programação bastante diversificada, tanto em termos musicais, temáticos e até linguísticos – os vizinhos latinos compareceram de forma maciça à frequência.

Mas, infelizmente, fizeram da forma errada. Sem autorização, a rádio, segundo o portal Imprensa, ainda tinha problemas técnicos em seu transmissor. Isso acarretou interferências em rádios próximas ao 90,7 Mhz, utilizado pela emissora, e ainda notificações de interferência na comunicação do aeroporto Santos Dumont.

A política para rádios comunitárias no Brasil é nula, ridícula. Mas não é dessa forma que as leis serão alteradas e o processo será corrigido. Nâo é instalando uma rádio pirata num evento internacional, para onde o mundo todo está olhando, que as coisas vão mudar. Muito pelo contrário. Isso só serve para distorcer o debate. Porque na tarde deste domingo, quando a ANATEL chegou para fechar a rádio, o que mais se ouvia era o apelo por “liberdade de expressão”. E essa liberdade não deve ser conquistada na marra. Precisamos de muita conversa para que o Brasil tenha o número de rádios livres/comunitárias que merece.

Aliás, o movimento perdeu uma grande chance de mostrar aos brasileiros como uma rádio comunitária funciona. A própria ANATEL afirmou, por meio de seu secretário-executivo, que uma autorização especial seria dada caso os equipamentos estivessem instalados de forma correta. A Cúpula dos Povos faria uma ótimo trabalho e ainda chamaria a atenção pra a falta que esse tipo de rádio faz para cada comunidade brasileira.

Mas não, preferiram ir pelos meios alternativos. Uma pena. Um retrocesso.

Obs.: e, pasme, parabéns à ANATEL por ter agido, em pleno domingo, para fechar a rádio que operava de forma ilegal. Independente de onde estava e quem estava lá, era uma rádio ilegal e ponto. Nâo há o que discutir em relação a isso.

A revolta dos sem-rádio

Por Rodney Brocanelli

Aproveitando que está se falando novamente da Voz do Brasil, publico aqui o texto de Paulo Lima, jornalista e publisher da revista Trip, publicado no Jornal da Tarde em 17/07/1996. Pouco mais de 14 anos após sua publicação original, o texto está um pouco datado. Alguns dados e informações já não valem mais. Contudo, alguns dos conceitos de Lima sobre o programa obrigatório continuam atuais.

Contra a minha vontade, fui jantar numa dessas churrascarias supostamente classe A. Na recepção havia algumas mesinhas baixas para quem aguarda ir acalmando o próprio estomago e afiando os caninos. Próximo a essas mesinhas havia dois balcões de promoção. Um oferecia doses de degustação de um certo vinho espanhol, ao qual os comensais teriam direito se consumissem acima de um certo valor. Sobre o outro balcão, repousava um abaixo-assinado com o cabeçalho pomposo e exigindo o fim da Hora do Brasil. Algumas assinaturas logo abaixo e uma caneta deitada solitária sobre a toalha, amarrada pela cabeça à lombada do livro. No dia seguinte, fui bombardeado por anúncios em várias emissoras, matérias em jornais e revistas, um verdadeiro movimento democrático exigindo a degola incondicional do programa oficial que ocupa o horário nobre de todas as emissoras de AM e FM do país.

O programa é, antes de mais nada, muito ruim. Qualquer estagiário de comunicação não teria grandes dificuldades para dar um upgrade no alto-falante do Congresso. Os redatores são ruins e, o principal, os deputados e os senadores são péssimos. Não há dúvida que a única e melhor solução é extirpar este furúnculo sonoro que ainda insiste em purgar nos ouvidos de um corpo já refeito de boa parte das feridas da doença da ditadura. Só o que podemos, porém, é terminar a análise por aí, fabricando o abaixo assinado e devorando a picanha com a sensação de dever cívico cumprido. Não questiono as intenções democráticas daqueles que iniciaram o movimento pelo fim da Hora do Brasil – antes de mais nada, um espólio do autoritarismo, ainda por cima anticonstitucional.

Desconfio, porém, da adesão rápida de incondicional de todas as emissoras do dial. Será que o espírito democrático seria o catalisador que faltava para unir uma classe tão desunida como a dos donos de rádios num passe de mágica? Um comercial de 30 segundos numa radio FM bem posicionada no dial paulistano vale cerca de R$ 300,00. São R$ 10,00 por segundo, valor que supera o cobrado por várias emissoras de TV por assinatura. O faturamento de que são privados os donos de rádios pela obrigatoriedade de transmissão da Hora do Brasil foi, sem qualquer duvida, o dado responsável por transformar a maioria deles em verdadeiros cara-pintadas, empunhado a bandeira da liberdade de expressão. Basta ouvir a maioria das vinte e tantas emissoras de FM e das dezenas de AMs para perceber que qualidade de programação não é exatamente o objetivo principal destes concessionários.

Já que o espírito democrático está tão aceso e já que a união nunca esteve tão forte em favor da liberdade de expressão, por que não acoplar à campanha pelo fim da Hora do Brasil outra pela democratização do sistema de rádio e teledifusão no país?

Se o ingênuo leitor ainda não sabe, canais de rádio e TV são concessões dadas pelo poder público a meia dúzia de ungidos, geralmente afilhados de peixes graúdos de Brasília, quase todos políticos de segundo escalão cuja intimidade com jornalismo e entretenimento é tão grande quanto a pata de uma tanajura. Recentemente a Justiça Federal em São Paulo sentenciou que não é crime instalar uma rádio de bairro com fins lucrativos.

Há um projeto tramitando no Congresso que cria a Lei da Informação Democrática, que acaba com o monopólio das grandes famílias, libera as ondas de ar para as emissoras de rádio e TV de baixa potência e manda todas as emissoras se dedicarem à educação, à cultura, às artes e ao jornalismo em primeiro lugar. Alguns dados fornecidos pelo professor Jose Carlos Rocha, da Escola de Comunicação de São Paulo: nos Estados Unidos há 11 mil canais de TV e 17 mil emissoras de radio. No Brasil, são 266 canais de TV e 1900 de radio. Nos EUA, há rádios para todos os segmentos sociais, inclusive minorias como lésbicas, sapateiros, estudantes… Há rádios no quarteirão e TVs de bairro.

No Brasil, a lei 4.117 diz que a concessão de radio e TV cabe ao Presidente da Republica. A Constituição de 1988 acrescenta que a concessão tem de ter o aval do Congresso. O que aconteceria se no Brasil fossem dadas concessões de emissoras a sindicatos, universidades, clubes, associações esportivas? As “College Radios” nos EUA (rádios operadas por estudantes) fizeram mais pela musica jovem que qualquer emissora “tradicional”. Há uma campanha no ar, em emissoras da FM em São Paulo, incitando os ouvintes a denunciar rádios piratas. Segundo a campanha, o Ministério da Aeronáutica e o órgão que coordena a aviação civil estariam reclamando da interferência dessas rádios nos sistemas de comunicação das aeronaves.

Em pela era de hiperdemocratizacao, que se dá pela Internet, a solução deste problema parece mais do que clara. Abrir, liberar, democratizar. Não há quem não reconheça a melhora do panorama geral com a abertura da importação de carros ou a criação das dezenas de novos canais de TV por assinatura.

Convido as emissoras serias de AM e FM a provarem suas verdadeiras convicções democráticas pela liberdade de expressão, lançando imediatamente uma campanha nacional pelo fim da política de concessões de emissoras de rádios pelo executivo e pelo legislativo.

Democratização da comunicação já! Rádios para os nordestinos de São Paulo, para os surfistas de Camburi, para os ecologistas da Jureia, para os playboys da Mooca, rádios para os sem-terra. Rádios para os Sem-Radios.