Por Marcos Lauro
Hoje demos a notícia do fim da 89 FM de São Paulo. Informações ainda não confirmadas dão conta de que uma rede gospel de rádios ocupará os 89,1 Mhz da capital a partir de dezembro.
Independente de isso ser concretizado ou não, acho que vale uma reflexão sobre as rádios voltadas à religião, que preenchem o dial paulistano.
Eu não tenho nada conta rádios evangélicas, católicas ou espíritas, desde que sejam profissionais. Tenho amigos que trabalham em rádios deste tipo, com condições que muita rádio comercial não tem.
Mas acho que devia haver algum meio de limitar o número e o alcance dessas rádios. Um exemplo: se a rádio tiver mais de 60% da sua programação voltadas a assuntos religiosos, limita-se a sua potência para que a mesma freqüência possa ser ocupada por outras rádios em outras regiões da cidade.
Ou então a ANATEL poderia definir alguns canais fixos para serem ocupados por rádios temáticas deste tipo. Assim, já seria notório que determinadas frequências seriam voltadas para esses temas e não haveria essa “invasão” a rádios comerciais.
Claro que essas e outras sugestões dependem de dois personagens: ANATEL e donos de concessão pública.
Na ANATEL, deveríamos ter uma reforma profunda no sistema de concessões e na fiscalização, tanto dos concessionários quanto dos piratas, que ainda são um dos grandes problemas especialmente nas periferias. Se reclamamos das rádios religiosas autorizadas, o que dizer das clandestinas? Faça o seguinte experimento: vá para qualquer bairro da periferia de São Paulo, coloque o seu rádio no modo scan (que percorre o dial parando nas frequências em que há sinal) e conte em quantas emissoras religiosas o seu rádio para. Depois compare a quantidade das piratas com a das legalizadas.
Já os donos de concessões deveriam ter mais responsabilidade. Claro que o rádio é um negócio como qualquer outro e ninguém vai entrar no ramo para tomar prejuízo. Você, leitor, não faria isso. Eu não faria isso. Mas os donos das emissoras deveriam ter compromissos assumidos junto à ANATEL, com punições duras em caso de descumprimento. O rádio é um serviço público e descontinuar uma emissora sem profundos argumentos deveria ser, no mínimo, motivo para perda da concessão. E a freqüência seria redistribuída para outros interessados, que participariam de uma concorrência pública e clara. Assim, seria possível um rodízio maior entre os barões da radiodifusão, alguns hoje com sete ou oito frequências no dial.
A queda da 89 FM é só conseqüência de algo que já vem acontecendo há um longo tempo. No coronelismo do nosso dial há gente que não se interessa por rádio, só pelo negócio. E um pouquinho de paixão pelo rádio e boa vontade já salvaria muita emissora boa que se foi.