Raridade: Oasis na rádio Brasil 2000

Por Marcos Lauro

Eu já não sei se foi real ou se é alguma peça que me prega a minha memória (que já era mais ou menos antes da COVID), mas eu me lembro do dia dessa gravação. Então, vou contar aqui o que está na minha memória. Se for mentira, só vai servir para tornar a história da gravação melhor.

Em março de 1998, a banda britânica Oasis passava pela América do Sul e no dia 21 foi a vez de São Paulo receber os malas, digo, irmãos Gallagher. Não fui ao show, mas acompanhava o movimento. Fico feliz em ver os fãs se organizando para grandes shows, mesmo que eu não vá e não seja tão fã assim. É bom ver os amigos empolgados.

Aí vem a parte da memória: o show acabou, a madrugada já avançava e eu me preparava pra dormir (sempre ouvindo a Brasil 2000) quando João Carlos Godas (o Tatola) “invade” o estúdio e diz: “Tenho aqui o show do Oasis inteiro, gravado num MD, e vou pôr no ar. Ouve aí”. E lá se foi a intenção de dormir mais ou menos cedo.

Em fita, com no máximo 60 minutos, tive que dividir o show em duas partes e, claro, não coube o show todo – que durou cerca de 1h40. Mas fica o registro pela memória, de um tempo em que os shows eram transmitidos pelas rádios e a gente ouvia.

A primeira parte (lado A da fita):

A segunda parte (lado B da fita):

O setlist completo das duas partes:

A

Be Here Now
Stand by me
Supersonic
Roll with It
D’you Know what I mean?

B

Don’t go Away
Wonderwall
Live Forever
I’m the Walrus
Cigarettes & Alcohol

Os 10 anos do 7 a 1

Por Rodney Brocanelli

Nem é preciso escrever muita coisa. A goleada sofrida pelo Brasil, em casa, para a Alemanha, pelo placar de 7 a 1 completa 10 anos. E pelo jeito as lições não foram aprendidas (É um 7 a 1 todo dia, desde 2014). Ouça as principais narrações de rádio que estão disponíveis na Internet

Narração de José Silvério, pela Rádio Bandeirantes

Narração de Nilson Cesar, pela Rádio Jovem Pan

Narração de Oscar Ulisses, pela Rádio Globo (SP)

Narração de Luiz Penido, pela Rádio Globo (RJ)

Narração de Pedro Ernesto Denardin, pela Rádio Gaúcha

Narração de José Carlos Araújo, pela Rádio Transamérica (RJ)

Narração de Deva Pascovicci, pela CBN

Narração de Irismar França, pela Rádio Verdes Mares

Narração de Aroldo Costa, da Rádio Jornal

Éder Luiz narra o gol de Schürrle, pela Rede Transamérica

Raridade: Dia Municipal do Rock na Brasil 2000

Por Marcos Lauro

No começo de junho, publiquei aqui nesse espaço uma raridade retirada de uma fita: o grupo Ira! ao vivo na rádio Brasil 2000 em 1998. Se você não ouviu, está aqui nesse link. Agora é a vez de outro achado do mesmo acervo.

Em setembro de 1997, a rádio Brasil 2000 organizou um festival na Praça Charles Miller, bem em frente ao estádio (então municipal) do Pacaembu. A iniciativa servia para reforçar as tentativas do, na época, vereador Turco Loco (PSDB) de valorizar bandas nacionais. E não estranhe: em São Paulo, o Dia Municipal do Rock foi instituido no dia 21 de setembro, diferente da data mundial, que é 13 de julho. Antes dessa data, o vereador havia proposto uma lei que obrigava produtores de shows internacionais a colocarem bandas nacionais nas aberturas – ideia que pegou em Porto Alegre e funciona até hoje. Aqui em São Paulo, a proposta foi barrada pelo prefeito Celso Pitta (PPB).

Mas voltando à Praça Charles Miller: A Brasil 2000 chamou um time de peso para comemorar o tal Dia Municipal do Rock: Arnaldo Antunes, Dr. Sin, O Rappa, Charlie Brown Jr. e uma participação mais que especial da banda australiana Men at Work, que estava no Brasil para uma turnê de dez show e “passou” pelo palco para um show surpresa. Aqui em São Paulo, eles já haviam tocado por duas noites no Olympia.

Ouça no player abaixo a primeira parte do especial:

No próximo player, a segunda parte do especial:

Abaixo, o setlist completo:

Parte 1
Arnaldo Antunes – O Silêncio
Arnaldo Antunes – O Poder
Dr. Sin – Down in the Trenches
Dr. Sin – Futebol, Mulher e Rock ‘n’ Roll
O Rappa – Hey Joe O Rappa – A Feira

Parte 2
Men at Work – Who Can it be Now?
Men at Work – Down Under
Men at Work – Overkill
Charlie Brown Jr. – O Côro vai Comê
Charlie Brown Jr. – Proibida pra Mim
Charlie Brown Jr. – Killing in the Name
Charlie Brown Jr. – Tudo o que Ela Gosta de Escutar

Show gravado no dia 21/9/1997 e transmitido pela Rádio Brasil 2000 no dia 27/9/1997.

Há dez anos, profissionais de Porto Alegre participaram de cobertura nacional da Bandeirantes na Copa do Mundo

Por Rodney Brocanelli

Ainda na esteira das comemorações dos dez anos da Copa do Mundo sediada no Brasil, outro momento marcante para a cobertura do rádio foi o uso de profissionais da Rádio Bandeirantes, de Porto Alegre, em uma transmissão de caráter nacional.

Em 18 de junho. Holanda x Austrália fizeram um dos jogos em Porto Alegre, no estádio Beira-Rio. A Bandeirantes escalou o narrador Daniel Oliveira e o comentarista Luiz Carlos Reche. Estes se juntaram a Alexandre Praetzel, que na ocasião trabalhava como repórter na matriz paulistana.

Como nem tudo pode ser perfeito, a transmissão desta partida não foi feita diretamente do estádio, mas sim dos estúdios em São Paulo. As vozes de Daniel e Reche foram ouvidas na rede liderada pela Bandeirantes, de São Paulo e Band News FM, que também foi integrada a essa rede.

O jogo teve muitos gols, com vitória da Holanda pelo placar de 3 a 2. Ouça os gols no player abaixo

Essa transmissão ainda rendeu um gafe de Reche, que confundiu Ulisses Costa, narrador da própria Rádio Bandeirantes, com Oscar Ulisses, que ne época estava na Rádio Globo (aliás, tudo em família).

Importante destacar que a Holanda terminou a Copa na terceira colocação, após derrotar o Brasil pelo placar de 3 a 0.

Quatro anos mais tarde, na Copa da Rússia, a praça de Porto Alegre emplacava mais dois profissionais na cobertura nacional. O hoje saudoso narrador Marco Antônio Pereira e o comentarista Claudio Duarte lideraram para toda a rede a transmissão de Uruguai 1 x 0 Arábia Saudita (clique abaixo). No entanto, em 2022, na Copa do Catar, esse expediente de trazer os profissionais de Porto Alegre não foi utilizado.

Raridade: Ira! ao vivo na Brasil 2000 em 1998

Por Marcos Lauro

Eu tinha essa mania de gravar programação de rádios, principalmente esses programas especiais. Coisas que iam ao ar uma vez e você não sabia se ia ter reprise – ainda mais nos anos 1990, quando a internet ainda engatinhava comercialmente no Brasil, a gente nem pensava nessa opção “depois eu ouço no site”. Nâo tinha. Perdeu, já era.

Acabou que nesse processo constante de mudança de mídias, não consegui digitalizar muitas das fitas que gravei de rádios. Nessa semana, fui mexer na pastinha com alguns desses mp3 e me deparei com uma raridade: uma apresentação ao vivo da banda Ira! na rádio Brasil 2000 em 1998, no programa Brasileiros e Brasileiras – que como o nome entrega, era dedicado ao rock nacional em todas as suas vertentes. Me falha a memória se todas as edições eram ao vivo com banda no estúdio, mas essa é. Ira! em sua formação clássica (Nasi, Scandurra, Gaspa e Jung) numa época em que a banda estava próxima das experimentações eletrônicas, como entrega a primeira música da primeira parte, “Às Vezes, De Vem em Quando”:

Sim, tem chiado – a rádio Brasil 2000 não pegava exatamente bem na Santa Cecília, onde eu morava na época. Quando chovia, piorava – quando não caía de vez. E o programa era bem direto mesmo, praticamente sem vinhetas entre as músicas, sem locutor “levantando a galera”, nada. Apenas a banda no estúdio. E eu em casa.

Essa foi uma época musicalmente controversa para o Ira! por conta dessas experimentações eletrônicas, que não eram bem aceitas por parte dos fãs. Numa apresentação no programa Bem Brasil, facilmente encontrável no YouTube, parte da platéia se vira de costas para o palco enquando o grupo toca uma das faixas desse álbum, o Você Não Sabe Quem Eu Sou. Durante a música “Justiça Militar, Justiça Civil (Liquidação de Verão)”, a mais tecno do disco, dá pra ouvir o guitarrista Scandurra gritando ao microfone a frase “OPEN YOUR MINDS” (“Abram suas mentes”). Nem todos abriram.

Na segunda parte da nossa raridade, vem um Ira! mais roqueiro:

O setlist completo das duas partes da apresentação:

Ira! ao vivo no programa Brasileiros e Brasileiras
Rádio Brasil 2000 – 1998

Parte I

1 – As Vezes de vez em Quando
2 – Correnteza
3 – Tantas Nuvens
4 – Vou me Encontrar
5 – Miss Lexotan 6 mg Garota
6 – Eu Não Sei
7 – Nada Além

Parte II

1 – Me Perco Nesse Tempo
2 – Você Não Sabe Quem Eu Sou
3 – É Assim Que Me Querem
4 – Você Não Serve Pra Mim

Pró-memória: o triste fim da Rádio Globo em São Paulo

Por Rodney Brocanelli

O fim da Rádio Globo em São Paulo completa quatro anos nesta sexta (31). A saída se deu em dois momentos: o primeiro, em fevereiro de 2020, quando o transmissor do AM (1100Khz) foi desligado. . O segundo se deu na virada do dia 30 de maio para o 1º de junho do mesmo ano a frequência do FM em 94,1Mhz foi devolvida aos seus donos. O Radioamantes registrou toda essa sequência. Acompanhe nos posts abaixo.

José Carlos Araújo comemora 60 anos de carreira

Por Rodney Brocanelli

O rádio esportivo está em festa devido aos 60 anos de carreira de José Carlos Araújo, completados no último dia 02 de abril. Fazendo jus ao apelido pelo qual é conhecido, Zé Carlos segue com pique de garotinho nas transmissões futebolísticas da Super Rádio Tupi e agora em seu podcast (ou mesacast, como queiram), o Cheguei, contando sempre com convidados relevantes.

Os primeiros passos foram na Rádio Roquette Pinto. Em seguida, passou por outras emissoras (as mais importantes foram Nacional e Globo), transformando-se em um nome em nível nacional. É difícil separar os melhores momentos de uma carreira tão longeva, mesmo assim vamos tentar.

Em 1978, ele narra, ainda pela Rádio Nacional, o título carioca do Flamengo, garantido nos últimos instantes de partida, com um gol de Rondinelli.

Já em 1984, assim que chegou à Globo, o Garotinho narraria o título do Fluminense, com um gol de Assis.

Em 1989, o Brasil parou para acompanhar o Botafogo sair de um período de longos anos sem título. O gol de Maurício ficou eternizado na voz do Garotinho.

Em 1987, o gol de Tita fez com que o Vasco fosse o grande campeão daquele ano.

Para os rubro-negros não reclamarem da seleção acima, um bônus: o emocionante gol de Petkovic que deu o título de 2001 para o Flamengo.

José Carlos Araújo tem dois títulos mundiais do Brasil no seu currículo. O primeiro veio em 1994, nos Estados Unidos.

Em 2002, ele também esteve lá

Rompimento de fibra quase impede transmissão de jogo histórico do Brasil em 2002

Por Rodney Brocanelli, colaborou Edu Cesar, do Papo de Bola

A edição deste último domingo (24) do Domingo Esportivo Bandeirantes trouxe uma importante história de bastidores relacionada a cobertura da Copa do Mundo de 2002, sediada na Coreia e no Japão. O apresentador Eduardo Castro, que na época integrou a equipe da emissora que esteve nos dois países, revelou que a transmissão de rádio da Brasil x Inglaterra, válida pelas quartas de final, esteve ameaçada.

E não foi só uma rádio ou outra que correu o risco de não ter como irradiar esse jogo. Foram todas. Para se entender o motivo, é bom dizer que em 2002 foi a primeira vez em que a tecnologia de rádio usou a fibra óptica, hoje algo bastante popular na telecomunicação, digamos, comercial (saiba mais sobre ela clicando aqui). Isso fazia com que o som chegasse limpo, em estéreo. Outra vantagem: o áudio chegava frações de segundos antes do som e da imagem da televisão, que vinham pelo satélite. Isso chamou a atenção do público que esteve ligado nos jogos da seleção brasileira.

Castro conta que chegou ao centro de imprensa, cuja sede era em Seul, poucas horas antes da partida e percebeu, ao lado do operador João Bicev que não estavam recebendo o retorno da Bandeirantes, apenas chiado. Além disso, não havia conexão com Shizuoka, cidade onde iria acontecer a partida

Bicev saiu pelo corredor e percebeu que a falha não era apenas com a sua emissora. Outros operadores perceberam o mesmo problema. Castro ligou para José Carlos Carboni, então responsável pelo departamento de esportes da Bandeirantes e informou a situação.

Duas horas antes do pontapé inicial descobriu-se o motivo da falha: um rompimento de fibra na Índia ocasionara esse transtorno. Entretanto, a ação rápida dos técnicos fez com que o sinal fosse restabelecido cerca de uma hora antes do início da partida. Com isso, todas as rádios presentes conseguiram levar aos seus ouvintes as emoções de uma vitória da seleção brasileira, de virada, pelo placar de 2 a 1, com direito a um gol antológico de Ronaldinho Gaúcho (ouça abaixo).

Sucesso de Eric Carmen gerou desconforto e (depois) pazes entre Hélio Ribeiro e Chico Anysio

Por Rodney Brocanelli

Diversos veículos divulgaram na data de hoje (12) a morte do cantor e compositor Eric Carmen acontecida no final de semana. Ele tinha 74 anos e ao menos até agora a causa não foi divulgada. Carmen provavelmente partiu sem saber que um de seus principais hits “Ali By Myself” teve uma enorme influência na cultura pop brasileira e no rádio, por que não?

Tudo começa quando Chico Anysio, que dispensa maiores apresentações, cria e coloca no ar um personagem para o seu Chico City, humorístico semanal veiculado pela TV Globo na metade dos anos 1970.

O programa estreou em 1973 a ideia era reunir todos os personagens de Chico em uma cidade fictícia para, com isso, satirizar os acontecimentos daquela época. E como toda cidade que se preza, ela tinha uma emissora de rádio. Seu principal locutor era Roberval Taylor.

Eis a definição do site Memória Globo sobre ele: “Radialista e locutor oficial da Rádio Chico City . De olheiras profundas e voz empostada, o irresistível comunicador era um demolidor de corações femininos, com seus belos poemas, traduções de músicas românticas e sua pronúncia irretocável”.

O sucesso foi imediato. Porém, ao menos uma pessoa se sentiu incomodada com esse personagem: Hélio Ribero. Na época, ele vivia seu auge na Rádio Bandeirantes, onde já comandava o seu consagradíssimo O Poder da Mensagem.

Uma dos pontos altos da atração era a tradução de músicas estrangeiras, em geral estadunidenses. Muitos ouvintes desejavam saber o significado de suas músicas preferidas e se ligavam em Hélio.

O personagem de Chico era altamente inspirado em Hélio, especialmente na empostação da voz e na questão das traduções.

Uma delas, que chegou até a ser registrada em disco (sim, em disco) é justamente All By Myself, de Eric Carmen (achou que tivéssemos se esquecido dele?). A canção atingiu o segundo lugar na parada da Billboard, em novembro de 1975 e ganhou diversas regravações, entre as quais a de Celine Dion.

Na versão livre de Roberval, All By Myself se transformou em Tudo Eu. Em inglês, o título tem o significado de Completamente Sozinho (ou sozinha, dependendo de quem canta).

Como já dissemos, houve esse incômodo de Hélio Ribeiro com Roberval Taylor, gerando algumas falas dele no ar. No entanto, a história teve um desfecho bastante positivo, que acabou entrando para a história do rádio.

Chico Anysio foi até os estúdios antigos da Rádio Bandeirantes e concedeu uma longa entrevista a Hélio dentro do Poder da Mensagem. “Ele (Roberval) é um entre muitos que querem ser Hélio Ribeiro”, disse o comediante.

O resultado é que depois desse bate-papo, as coisas se resolveram. Chico prosseguiu interpretando sua criação e Hélio já não mais implicou com o personagem. Eric Carmen talvez nem teve conhecimento de tudo isso.

Ouça abaixo a “tradução” de Roberval Taylor

Ouça o original

E ouça abaixo o encontro entre Hélio e Chico.

Comandado por Fausto Silva, Perdidos na Noite comemora 40 anos de sua estreia

Por Rodney Brocanelli

O Brasil é mesmo um país que não tem memória. É um clichê? Sim, mas ele continua cada vez mais traduzindo a realidade deste país. O último dia 11 de fevereiro marcou os 40 anos de uma estreia que mudou o panorama da televisão nos anos seguintes. Em 1984, na citada data, estreava pela TV Gazeta o Perdidos na Noite, comandado por Fausto Silva. Sem medo de errar, é possível escrever que ninguém lembrou.

Algo curioso é que, em sua estreia, o Perdidos na Noite era um programa dentro do outro. Explicando: ele fazia parte do 23ª Hora, que ia ao ar todos sábados, à noite, na TV Gazeta, comandado e dirigido por Goulart de Andrade.

“A programação alternativa das noites de sábado, a “23ª Hora”. de Goulart de Andrde, está ampliando suas opções ou, no dizer de seu diretor, “justificando os propósitos para os quais fou criada”. A partir fde hoje, no horário das 23 horas à uma da madrugada, um pouco da dinâmica do rádio será transplantada para a televisão, num programa de variedades de nome “Perdidos na Noite”, comandado por Fausto Silva e produzido por Lucimara Parisi”.

Assim abria o texto publicado em O Estado de S. Paulo, do dia 11 de fevereiro de 1984, sem assinatura, cujo título foi “Perdidos na Noite, a dinâmica do rádio na TV”.

Para quem não sabe, o Perdidos na Noite é um derivado do Balancê, programa de rádio veiculado pela antiga Rádio Excelsior (hoje CBN) no início dos anos 1980. Um de seus períodos de maior repercussão aconteceu justamente na fase em que Fausto Silva foi seu comandante. O sucesso era tamanho que durante uma certa época, ele foi apresentado do Teatro e Palhaçaria Pimpão, que ficava no bairro da Santa Cecília (SP), próximo aos estúdios do Sistema Globo de Rádio, “dono” da Excelsior.

Certa vez, Goulart de Andrade foi até a fim de fazer uma reportagem para seu programa e notou que Fausto e sua turma faziam um programa de rádio na televisão. Contamos essa história aqui mesmo no Radioamantes (e até por isso mesmo que esse registro da história de outro veículo é feito aqui em um site sobre rádio).

Ao tradicional jornal situado na margem do Rio Tietê, Fausto disse que o Perdidos “é uma opção para quem não aguenta tanto filme nas outras emissoras. Vamos brincar com o telespectador, fazendo-o participar , ao mesmo tempo em que desvendaremos os bastidores da televisão”. Aliás, o texto do Estadão informa um apelido pelo qual ele era conhecido: Pipa (Pipa?).

O programa contou com a presença da cantora Fafá de Belém, que segundo o jornal, falaria “sem a pressa obrigatória dos outros canais”. Os então jogadores Serginho, então defendendo o Santos, e Luis Pereira, atuando pelo Palmeiras, participaram falando sobre Copa do Mundo. Outra participação musical: a do Trio Los Angeles, cujos integrantes prometiam esclarecer a história de que estariam dublando a banda The Fevers na música de abertura da novela Transas & Caretas, da Rede Globo (alguém lembra dessa situação?).

O Perdidos na Noite se notabilizou pela divulgação do teatro. No seu primeiro programa, Silney Siqueira e Mauro Chaves, nomes conhecidos deste universo, estiveram presentes. Uma outra atração foi o músico Vidal França.

Um cardápio de atrações bem variado para duas horas de duração.

Não faltaram também as intervenções humorísticas de Carlos Roberto Escova e Nélson Tatá Alexandre, “o único quadro permanente do programa”, segundo o jornal. A sonoplastia contou com o talento de João Antônio de Souza, o Johnny Black.

Assim como o Balançê, o Perdidos na Noite foi um programa de auditório. Em seus primórdios, ele era gravado no Teatro Brigadeiro, na av. Brigadeiro Luiz Antônio, 884, no bairro da Bela Vista, também em São Paulo. O local hoje é ocupado pelo Teatro Nissi.

Em maio de 1984, Goulart de Andrade se transferiu para a TV Record levando o Perdidos na Noite. Dois meses depois, devido a questões financeiras, a equipe deixou o guarda-chuva do apresentador e a própria emissora acabou “ficando” com a atração, mantendo-a nas noites de sábado. Houve uma acomodação na grade e o programa de Goulart entrava logo depois, a partir da 01h.

Em pouco menos de um ano, o programa já apresentava bons índices de audiência. Segundo reportagem do Jornal do Brasil, publicada em 18 de janeiro de 1985, assinada por Mirian Lage , “em São Paulo, a média de audiência fica em torno de 10% e, no Rio 4%”. Números que deixavam para trás outra tradicional atração dos fins de noite da Record: o Clube dos Esportistas (exibida às terças). O “pandemônio visual a auditivo onde não acontece nada”, conforme palavras da jornalista, ficava na casa dos 4% em São Paulo e 2% no Rio de Janeiro.

Outro dado importante trazido pelo bom, velho e saudoso JB: de julho a outubro (1984), a audiência cresceu 88% em São Paulo. Com o vento a favor, a direção da Record decidiu, em agosto de 1985 antecipar o horário do Perdidos. Ele entraria no ar a partir das 22h30. Já em novembro, sem divulgação prévia, houve uma nova alteração, desta vez para as 22h.

Ao mesmo tempo em que o sucesso crescia, a Censura Federal, que ainda estava atuante naquele período, reforçou a sua vigilância, proibindo os palavrões que eram falados por Fausto, a dupla Tatá e Escova, e alguns de seus convidados. Volta e meia um sinal sonoro (o famoso piii) entrava por cima de alguma fala.

Em 1985, Miriam Lage, no Jornal do Brasil, incluiu o Perdidos na Noite em sua lista dos dez melhores programas de televisão daquele ano, ao lado da novela Roque Santeiro e da minissérie Grande Sertão: Veredas, ambas da Globo, os documentários Xingu, da Manchete, e Furacão Elis, da Bandeirantes, entre outros. “A irreverência bem-humorada do gordote (sic) Fausto Silva lhe assegurou um bom ano de audiência e a irrestrita simpatia do público. O programa mostra, sem pudores, o avesso da televisão arrumadinha, com uma espontaneidade cada vez mais rara”, escreveu a jornalista.

Em 1986, em uma publicação sem o dia e mês facilmente localizáveis (provavelmente seja das primeiras semanas daquele ano), a mesma Miriam (do JB) anunciava o namoro de Fausto Silva com a Bandeirantes. “Só não dará em casamento se a Record insistir para que ele cumpra o contrato em vigor até junho”, registrou.

O enlace foi registrado pelo periódico em março do mesmo ano pelo Informe JB, assinado por Ancelmo Góis: “Perdidos na Noite, agora pior que antes: esse será o novo slogan que o apresentador Fausto Silva vai usar em seu programa a partir do dia 19, às 22h, quando estreia na TV Bandeirantes”.

A estreia se deu em 19 de abril de 1986. Ou seja, a Record não jogou duro no que diz respeito ao contrato. Uma das vantagens da mudança de emissora é que a Bandeirantes já naquela época tinha um grande número de emissoras afiliadas espalhadas pelo Brasil. A Record ficava limitada apenas ao eixo Rio-SP e outras poucas estações de televisão.

Curioso que ao olhar a grade de programação da Bandeirantes daquela época, o Perdidos começava as 22h e a partir da meia noite entrava no ar o Plantão da Madrugada, comandado por…Goulart de Andrade.

Em outra publicação, ainda de 1986, a jornalista Marilia Martins, do JB (obrigado Arquivo Nacional) fez um breve balanço dos primeiros meses de Faustão em sua primeira passagem pela Band: “Perdeu muito do antigo charme brega e ganhou um ar mais competente, a começar pela apresentação. Resultado: em menos de um mês, já bateu o índices do Clube do Bolinha, o campeão da emissora. Um sucesso mais do que merecido para aquele que renovou a velha fórmula dos programas de auditório e ressuscitou um tipo de humor que se baseia, em grande parte no improviso da hora da gravação”.

O programa tinha fãs ilustres. Um deles era Caetano Veloso. Em uma reportagem do JB sobre as opções de programação da televisão no fim de noite e madrugada adentro, e seus fãs, ele disse: “Aos sábados, começo vendo os programas do Faustão, aquele gordo de São Paulo”.

Em julho de 1988, uma nota publicada na prestigiada coluna de Zózimo Barroso do Amaral já indicava o futuro de Fausto Silva na televisão: “Se ainda não conversou, a TV Globo vai conversar com o animador Fausto Silva, estrela das noites de sábado do programa Perdidos na Noite. Fausto será sondado sobre a possibilidade de vir a protagonizar um programa de variedades e distribuição de prêmios nas tardes de domingo. Com a morte do insubstituível Chacrinha, a emissora está sem um grande comunicador. Sabe-se, aliás, que a ideia é ocupar o espaço aberto nas tardes de sábado com uma programação esportiva, basicamente dirigida ao público masculino”.

Apesar do tom cuidadoso e até mesmo nonsense (“Se ainda não conversou, a TV Globo vai conversar…”), Zózimo acertou na mosca em relação as informações sobre o animador. Em março do ano seguinte, Fausto iria comandar um programa exatamente com as características citadas na emissora de maior audiência do país: o Domingão do Faustão.

O colunista não citou, mas pouco tempo antes, a Globo havia tirado Gugu Liberato do SBT. Ainda na fase de pré-produção e pilotos, Silvio Santos, com problemas na voz e temendo pelo futuro de seu programa e de sua emissora, foi diretamente até Roberto Marinho pedir a recontratação de seu pupilo. Contrariando as expectativas, o dono da Globo aquiesceu. Esse evento teve enorme influência para o que aconteceria depois.

Fausto teve uma carreira longeva na Globo. O Domingão foi ao ar de março de 1989 até junho de 2021. Em janeiro de 2022, ele se transferiu para a Bandeirantes, mas desta vez para estrelar o Faustão na Band até julho de 2023. Atualmente, o apresentador está afastado da televisão, em recuperação de um transplante de rim. realizado em janeiro de 2024. Pouco tempo antes, ele fez outro transplante, de coração.

Lucimara Parisi trabalhou com Faustão até 2009, quando ambos estavam na Rede Globo. No ano seguinte, foi trabalhar com outro comunicador: Ratinho. Essa parceria durou até 2022. Lucimara também foi para a frente das câmeras, apresentando um programa na RBTV.

Após o fim do Perdidos, Nélson Tatá Alexandre e Carlos Roberto Escova não foram trabalhar no Domingão do Fasutão. Tatá passou por diversas rádios desde então e integrava a equipe do Show de Rádio na Rádio Bandeirantes quando teve um aneurisma cerebral que o impediu de trabalhar.

Escova também seguiu sua carreira no rádio, mudando-se para Porto Alegre, onde trabalhou nas rádios Atlântida e Ipanema. Depois, ele voltou para São Paulo, indo para a Jovem Pan FM onde participou de vários quadros de humor. Nova mudança de endereço e ele foi viver em Miami (EUA). Retornou ao Brasil e ele foi morar na cidade de Ourinhos. Nesta cidade, atuou nas rádios Clube e Melodia. Morreu em 20 de dezembro de 2015.

João Antonio de Souza, o Johnny Black, também não foi levado por Faustão para a Globo. Seguiu sua carreira como operador de áudio, trabalhando nas emissoras do Sistema Globo de Rádio. Morreu em 4 de setembro de 1996.

Existem no YouTube vários registros do Perdidos na Noite tanto na Record como na Bandeirantes. A dúvida fica sobre o paradeiro das gravações da primeira fase, quando a atração estava ligada a Goulart de Andrade, seja na Gazeta ou na própria Record. A esperança é que elas estejam dentro do acervo de Goulart que foi doado à Cinemateca Brasileira.

Que os amantes da memória da televisão cruzem os dedos: em julho de 2021, a sede da Cinemateca sofreu um incêndio. Até hoje, fala-se que parte das fitas cedidas pelo jornalista foram danificadas, mas sem qualquer tipo de confirmação oficial.

Uma última nota sobre o 11 de fevereiro de 1984: naquele mesmo dia, dentro do 23ª Hora, estreava um outro quadro por alguém que também iria fazer uma carreira bem consistente na televisão, Silvio Lancellotti. Conhecido por sua ligação com o futebol italiano nos anos que se seguiram, ele comandava o Santa Ceia, que trazia o melhor dos restaurantes de São Paulo, com direito a receitas, e entrevistas com seus donos e chefes de cozinha.

A fotos que ilustram este post foram gentilmente cedidas pelo Felipe Martinelli Braga, que é autor de uma dissertação de mestrado sobre o Balancê, da Rádio Excelsior. Já falamos sobre esse trabalho aqui no Radioamantes.

Osmar Santos e a campanha das Diretas Já

Por Rodney Brocanelli

Com tanta coisa acontecendo no âmbito político, infelizmente a comemoração dos 40 anos da campanha das Diretas Já! vem ficando em segundo plano. No último dia 25 de janeiro, o comício da Praça da Sé, em São Paulo, teve uma retrospectiva tímida. Como a luta pelas eleições diretas, que tomou boa parte do primeiro semestre de 1984, tem vários marcos, espera-se que em abril essa lembrança seja retomada de forma mais consistente.

Um dos grandes nomes daquela campanha de mobilização popular foi Osmar Santos. Seu poder de comunicação foi capaz de comandar grandes plateias que foram às ruas de cidades importantes deste país pedir a volta das eleições diretas para presidente da República.

Naquela época, o narrador era chefe de esportes da Rádio Globo em São Paulo, apresentador da versão paulistana do Globo Esporte e narrador dos compactos de futebol nas noites de domingo (para São Paulo),

Seu envolvimento com a campanha (que já estava nas ruas) começa na noite do dia 31 de dezembro de 1983, Osmar Santos foi escalado para narrar a corrida de São Silvestre, tradicional corrida de rua promovida pela Fundação Cásper Líbero. Naquele ano, a prova era disputada à noite, quase que às portas do ano seguinte.

A São Silvestre ia se desenrolado e um corredor brasileiro foi se destacando: o mineiro João da Matta, que na ocasião tinha 30 anos. A narração de Osmar foi ganhando contornos de uma mensagem de esperança, ao mesmo passo em que João ia consolidando seu triunfo.

“Lá vem João da Matta…O Brasil em primeiro lugar…Este Brasil sofrido, desgovernado…Força, Garotinho! Pensa no seu povo…oprimido, angustiado, cansado de se alimentar apenas de sonhos de que um novo tempo vai chegar. Vem, João da Matta, o novo campeão da São Silvestre! Parabéns, João da Matta! Que esta tua vitória seja o anúncio de um ano de esperança, de realizações, de conquistas, vai trazer uma nova vida, uma vida mais digna para aqueles que realmente amam este país. Obrigado, amigo João. Tua força, tua garra faz com que a gente tenha orgulho de dizer: sou forte, sou guerreiro, graças a Deus, sou brasileiro”. (uma pena que não exista um registro disso no YouTube).

ATUALIZAÇÃO – (26/12/2025) – Apareceu o registro da prova de São Silvestre no ano de 1983. O trecho destacado acima não aparece no vídeo, mas o tom da narração e retirado da obra citada no fim do texto é semelhante. Clique no player abaixo para acompanhar (relevem a marca d’água que aborrece).

A mensagem de Osmar chegou aos ouvidos de Álvaro Dias, então governador do Paraná, que, em meio a confraternização em família, encontrou tempo para assistir a transmissão da São Silvestre.

Álvaro comentou com o irmão, que também se chama Osmar, que seu xará deveria ser o apresentador do comício pelas diretas programado para o dia 12 de janeiro, em Curitiba.

O narrador não aceitou de cara o convite feito em seguida pelo governador. Ele consultou o psicólogo e amigo Mauro Madureira e o diretor executivo do esporte da Rede Globo na ocasião, Marco Mora.

Ao ver que não haveria objeção de seu empregador, Osmar embarcou nessa jornada.

Claro que ocorreram problemas nos comícios das Diretas Já. Quarenta anos depois, eles ganham hoje até um ar de anedota. Mas o fato de um impostor ter se passado por um deputado argentino na concentração de Curitiba deixou muita gente com o coração na mão.

Um certo Juan Carlos Quintana ocupou o palanque e fez um discurso em que declarou “o apoio do governo argentino aos anseios de viver num país democrático que unem todos os brasileiros”.

O governo da época protestou, evocou a soberania externa e disse que forças externas estavam comandando a baderna. Após isso, cuidados foram tomados para que situações como essa fossem evitadas.

Após o comício do dia 25 de janeiro, na Praça da Sé, em São Paulo, Osmar tomou à frente nas outras reuniões em grandes capitais. Para isso, ele teve que vencer certas resistências e os planos de outros organizadores. Por exemplo, Ziraldo, atendendo a um convite do então governador Tancredo Neves, iria apresentar o comício em Belo Horizonte. O cartunista foi, mas Osmar estava lá também.

No Rio, o governador Leonel Brizola escalou o ator Milton Gonçalves e a atriz Christiane Torloni. Apesar de ser um nome de rádio, que era um veículo regional, Osmar não só esteve lá, mas como deu um show de comunicação com o público.

Osmar teve que apagar alguns incêndios. Em diversos momentos, ele teve que pedir ao público de diferentes tendências políticas para que não vaiasse os políticos. Um exemplo pode ser visto no vídeo abaixo. No comício da Praça da Sé (SP), Oswaldo Maciel (sim, Oswaldo Maciel) chama o então prefeito de Novo Horizonte Sidney de Biasi, que era do PDS, o partido que dava sustentação ao governo do general Figueiredo. Biasi representava um grupo de prefeitos que era favorável às Diretas. Osmar interveio para deixar clara a posição que o político tinha naquele momento e as vaias se transformaram em aplausos.

A única vez em que Osmar realmente não conseguiu controlar o público aconteceu no comício do Anhangabaú (SP). Ao agradecer os profissionais de imprensa que faziam a cobertura daquele evento, a massa se uniu em um coro só: “O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo” (eu vi isso ao vivo na TV Gazeta, que transmitiu tudo quase que na íntegra – tinha 13 anos e não havia ninguém para me levar até o local). Essa saia justa não trouxe grandes consequências à carreira de Osmar na Globo, como veremos adiante.

Após a mobilização popular, as atenções se voltaram para a Câmara dos Deputados, em Brasília. Uma emenda à Constituição brasileira (a de 1967) proposta pelo deputado Dante de Oliveira (PEC nº 05/1983) estava para ser votada no dia 25 de abril de 1984. Seu objetivo era restabelecer as eleições diretas para presidente do Brasil.

Apesar das medidas de segurança decretadas pelo Governo Federal, Osmar Santos esteve nas galerias da Câmara para acompanhar a votação. Assim como grande parte da nação, ele saiu frustrado com o desenlace. A emenda não foi aprovada. Para uma alteração constitucional, seriam necessários 320 votos, conforme as regras da época. No entanto, foram apenas 298 votos a favor. Além do mais, quem era contra simplesmente não apareceu no plenário para votar, evitando assim maiores desgastes eleitorais.

Politicamente, o ano de 1984 ainda seguiu bastante agitado com a definição dos candidatos à presidência que iriam se enfrentar no ano seguinte, com o voto indireto de deputados, senadores e delegados definidos pelos governadores, o famoso Colégio Eleitoral.

Tancredo Neves foi lançado como candidato da oposição (acabou sendo o vencedor, promovendo o início da Nova República). Paulo Maluf defendeu as cores da situação, embora o preferido dela fosse outro: Mario Andreazza.

Osmar até foi convidado para animar os comícios de Tancredo Neves, porém essa parceria não foi duradoura. O publicitário Mauro Motoryn conta que em Goiânia, o locutor ficava instando o público toda hora a responder se eles queriam diretas. “Esse menino não pode mais apresentar porque não estamos mais nas diretas e ele fica chamando isso aí”, disse Tancredo em uma conversa de lado com Mauro. Ele mesmo passou a comandar os comícios e houve também a presença de apresentadores locais.

A carreira de Osmar Santos não foi afetada pela sua ampla participação nessas campanhas de mobilização política. Ele permaneceu na Rede Globo com as suas atividades já assumidas e foi um dos narradores na cobertura do Jogos Olímpicos de Los Angeles, disputados entre julho e agosto.

Um de seus grandes momentos na televisão se deu justamente na medalha de ouro conquistada por Joaquim Cruz na prova dos 800m. Em uma narração emocionante (sem ser gritada), ele citou Milton Nascimento. “É preciso ter força, Joaquim! É preciso ter gana. É preciso ter raça, sempre, Joaquim”, disse instantes antes da largada.

Após a chegada e com a confirmação da vitória do brasileiro, Osmar fez uma discreta correlação com os momentos do país: “Essa é a raça que o brasileiro tem que ter para viver. Mudar os dias difíceis”.

Dois anos depois (já na Nova República, sob o comando de José Sarney), Osmar tomava a frente de mais uma cobertura importante: a da Copa do Mundo, sediada no México. Seu nome foi escolhido depois de uma solicitação das agências de publicidade (informação que consta em Olha o Que ele Fez, documentário que conta a trajetória profissional de Galvão Bueno). Narrou os jogos do Brasil, além de outras partidas importantes, entre elas, a final.

Pouco mais de dez anos depois da campanha das diretas, uma tragédia mudaria a vida de Osmar para sempre. Em dezembro de 1994, ele foi vítima de um grave acidente automobilístico. Ele lutou pela vida durante semanas e meses. No entanto, os danos cerebrais causados pelo traumatismo craniano afetaram a sua capacidade de fala. Afastado dos veículos de comunicação, ele encontrou uma nova forma de expressão na pintura.

Muitas das informações desse texto foram retiradas do livro “Osmar Santos, o Milagre da Vida”, da Editora Sapienza, escrito pelo jornalista Paulo Matiussi e publicado em 2004. Fora de catálogo, merece um relançamento.

Morre Roberto Oliveira, histórico plantão esportivo da Jovem Pan

Por Rodney Brocanelli

Morreu neste sábado (10) Roberto Oliveira, histórico plantão esportivo de emissoras de rádio como Gazeta e Jovem Pan. Nesta última, trabalhou por muitos anos, fazendo dobradinha com Milton Neves. Após ter um AVC, que afetou sua fala, voltou ao trabalho na emissora, mas desempenhando com maestria funções de retaguarda. Até o momento da publicação deste post, a causa não foi informada, assim como informações sobre velório e enterro. Tinha 84 anos.

Alguns ex-colegas de Jovem Pan usaram as redes socais para lembrar do companheiro. Segundo Luis Carlos Quartarollo, era um “grande profissional e extraordinária figura humana”.

No Instagram, Flavio Prado registrou que Roberto era “um dos melhores seres humanos que conheci. E extremamente competente no que fazia”.

Wanderley Nogueira destacou o lado profissional: “plantão Esportivo brilhante e produtor criativo e eficiente”.

Ouça abaixo um registro da voz de Roberto Oliveira em bate bola com Milton Neves em 1991, na Rádio Jovem Pan.

Foto extraída do site Terceiro Tempo

Transamérica muda escala no Rio e transmite classificação do Fluminense para São Paulo

Por Rodney Brocanelli

Contrariando toda a divulgação oficial, Breno Monsef narrou a partida entre Fluminense x Al Ahly, partida válida pela semifinal do Mundial de Clubes da Fifa na Rádio Transamérica/RJ. O tricolor das Laranjeiras venceu o confronto pelo placar de 2 a 0. Bruno Cantarelli estava escalado para a transmissão desta partida, conforme informado pelo Radioamantes (e outros sites). Veja abaixo.

Algo que também surpreendeu, até porque também não estava na divulgação oficial, foi que a Transamérica, de São Paulo, também transmitiu essa partida, com a narração de Guilherme Lage.

A assessoria de comunicação da Transamérica foi procurada para saber se houve algum problema com Bruno Cantarelli para que ele saísse dessa escala. Caso chegue alguma resposta, este post será atualizado.

Há dez anos, estreava o Radioamantes no Ar, versão radiofônica do blog Radioamantes

Por Rodney Brocanelli

08 de junho de 2013. Nesta data, estreava a versão radiofônica do blog Radioamantes. Intitulada de Radioamantes no Ar, o programa semanal era veiculado pela web rádio Showtime. No inicio, a atração ia ao ar todos os sábados, sempre a partir das 09h30. A atração também já foi transmitida às segundas e também às sextas.

A ideia era um programa com análises e notícias sobre o veículo rádio. A base eram os posts publicados pelo Radioamantes durante a semana. Notícias de outros veículos também eram comentadas.

Eu sempre entrava por telefone, de casa. No estúdio, João Alckmin e o saudoso Flavio Aschar interagiam. Em determinado momento, Paulo Ramalho, radialista com larga experiência na gestão de importantes emissoras do país, participou com importantes lembranças da Rádio Cidade/Sucesso. Outro nome importante é o de Rogério Alcântara, que fez participações mais constantes a partir da saída de Flavio.

Como todo bom programa (modéstia à parte) precisa de um grande operador, não posso deixar de citar Dejair Barbosa, o Fufunha, que pilotava a mesa de som com maestria e entrava no ar de vez em quando.

José Simão (sim, ele mesmo) não sabe, mas ele ajudou na formatação do programa. Uma das edições da revista Brasileiros (acho que de 2008) trouxe um perfil dele e um dos pontos que chamou a minha atenção dizia respeito ao seu quadro de sucesso nas manhãs da Band News FM.

O texto informava que Simão sempre mandava previamente por email a pauta com os assuntos que ele iria comentar. Com esse material em mãos, Ricardo Boechat (o âncora do jornalístico na época) fazia as introduções para que o humorista brilhasse.

Decidi fazer o mesmo. Na noite anterior ao programa, mandava os assuntos da pauta para João, que com sua voz grave me acionasse.

O Radioamantes no Ar contou também com o que julgo ser grandes entrevistas. Logo na primeira chance, colocamos no ar Willy Gonser. Na ocasião, o Atletico-MG havia acabado de conquistar a sua primeira Libertadores e ele exaltou o papel da torcida. Bem no final, uma torta de climão. Eu decidi perguntar se ele ficava incomodado quando citavam seu namoro com a cantora Elis Regina.

Mas nem só esse lado revista Amiga foi explorado nas entrevistas. Ronan Junqueira contou sobre sua experiência nos primórdios da Rádio Capital. O crescimento das web rádios foi abordado diversas vezes com os convidados Guto Monte Ablas e Ivan Bruno (hoje narrador esportivo na TV Bandeirantes).

Celene Araújo, conhecida por seu trabalho como apresentadora da edição paulistana do Jornal Hoje, foi chamada para falar sobre seu período como apresentadora na Rádio Cidade.

E mais: pude bater papo também com veteranos do rádio, como o também saudoso Roberto Carmona, que em 2014 estava completando 50 anos de carreira. Outro nome histórico que marcou presença no Radioamantes no Ar foi Flávio Araújo, que relembrou suas grandes coberturas em um papo de 2013 (hoje ele curte a aposentadoria em Poços de Caldas).

Ainda no campo esportivo Odinei Edson e Edgard Melo Filho, em momentos diferentes, falaram sobre a extensa cobertura que o rádio faz do circo da Fórmula 1.

Marcos Couto, narrador esportivo da Rádio Bandeirantes, de Porto Alegre, foi convidado e fez uma excelente exposição sobre a relação do público porto-alegrense com o rádio.

E do Sul também, Edu Cesar, do Papo de Bola, abrilhantou o Radioamantes do Ar em pelo menos três ocasiões.

Ao menos uma entrevista marcou história: com Zuleide Ranieri, que foi narradora de futebol na Rádio Mulher nos anos 1970. Ela conversou com o Radioamantes no ar em 2015. Nos últimos anos, com o aumento do espaço para mulheres na narração esportiva, seja no rádio e na televisão, muito se buscou sobre o que foi feito anos antes e uma das fontes disponíveis era o depoimento dela. Zuleide morreu em 2016.

Esses foram apenas alguns exemplos. Teve muito mais.

Mesmo não sendo entrevistado, um personagem do rádio era muito lembrado no Radioamantes no Ar. Tuta? Tutinha? Roquette Pinto? Marconi? Hertz? Gadret? Não. Paulo Abreu, dono da Rede Mundial de Comunicações (também chamada de Rede CBS), conhecido por trocar constantemente suas emissoras de lugar no dial da Grande São Paulo. João Alckmin sempre cobrava um Cantinho do Abreu, com alguma notícia relacionada a ele ou suas emssora. Tinha até uma vinheta. No princípio, era cantada pelo pessoal do estúdio, mas depois ganhou uma versão gravada e luxuosa.

Volta e meia surge a pergunta: por que o Radioamantes no Ar acabou. Nada de mais, apenas a falta de tempo para prosseguir com esse projeto. A última edição foi ao ar em 07 de dezembro de 2018, com uma entrevista: o jornalista Anderson Cheni. Entre outros temas, ele falou sobre as mudanças na votação de melhores do ano do Prêmio Aceesp, oferecido pela Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo).

Devo dizer que em todo esse tempo, sempre existiu liberdade editorial. Nunca houve veto para qualquer tipo de assunto ou para convidados especiais. Deixo um agradecimento público ao João Alckmin, que fez o convite a partir de uma entrevista que concedi à própria Showtime uma semana antes da estreia oficial do programa.

Todo o acervo do Radioamantes no Ar está disponível para consulta aqui mesmo nos arquivos do blog, no YouTube e no perfil da Showtime no Soundcloud.

Antes de encerrar, quero lembrar de duas pessoas queridas da Showtime que já não estão mais por aqui: Carlos Brickmann e Zildetti Montiel.

Memória: o dia em que Ferreira Netto foi salvo por João Carlos Albuquerque em plena ditadura argentina

Por Rodney Brocanelli

João Carlos Albuquerque, conhecido do grande público pelo seu trabalho como apresentador nos canais ESPN, praticamente salvou o jornalista Ferreira Netto de ser preso pelos militares na Copa do Mundo de 1978, sediada na Argentina. João Canalha, como é carinhosamente chamado pelo público e amigos, contou essa história em entrevista ao Music Thunder Vision, podcast comandado por Luiz Thunderbird, músico e ex-VJ da MTV.

Ferreira e João Carlos estavam trabalhando juntos na cobertura daquele mundial pela mesma emissora, a Rádio Capital. Na época, ela era dirigida por Hélio Ribeiro. A Capital contava com nomes importantes do rádio esportivo da época: Jota Junior (não o narrador que recentemente deixou o Sportv, mas um profissional que teve muito destaque nas cidades de Belo Horizonte e Goiânia), Alfredo Orlando (ex-Tupi, de São Paulo), Ávila Machado, Marco Antônio Mattos (que se notabilizou por narrar vôlei na TV Bandeirantes), entre outros.

A Capital ainda contava com Dulcídio Wandeley Boschila, na época árbitro de futebol, que atuou como o “juíz do juíz”. Na época, o termo “comentarista de arbitragem” não estava popularizado, algo que aconteceu a partir do final dos anos 1980. Outro nome de destaque era o de Edson Leite, narrador histórico da Rádio Bandeirantes. Neste mundial, ele atuou como analista. Ferreira fora contratado para fazer uma cobertura extra-campo, um repórter especial.

A seleção brasileira de futebol estava às vésperas de enfrentar a seleção da argentina na cidade de Rosário. Aquela partida ficou conhecida depois como a “Batalha de Rosário”. Parte da equipe da emissora paulistana fez o deslocamento de trem, devido às más condições de tempo: João, Ferreira e o saudoso operador Laureci Calheiros.

Devidamente instalados na cidade, João ficou no hotel reservado pela emissora, enquanto Ferreira Neto e Laureci foram para o local onde estava hospedada a delegação do Brasil. O esquema da Capital previa boletins ao vivo a cada 15 minutos (coisas de Hélio Ribeiro).

Tudo pronto, o boletim entrou no ar, comandado por João. Ele chamou Ferreira, que começou a falar até a comunicação ser interrompida. O apresentador assume novamente, lê algumas notas e encerra a transmissão.

Pouco depois, Laureci contata João e revela o que houve. Um coronel do Exército argentino havia proibido (sabe-se lá com qual autoridade) transmissões ao vivo, por um pedido da própria seleção brasileira. Tentou-se então uma alternativa. O gerente do hotel liberou o uso de um telefone de seu escritório. Novamente a transmissão é interrompida.

Conforme o relato de João ao podcast, ele ficou sabendo depois, por Laureci, que o tal coronel entrou na sala e arrancou o fio de telefone da parede e jogou o aparelho em um canto da sala. Ferreira Netto não se conteve e partiu para a briga com o militar.

Outros dois soldados foram chamados para prender Ferreira. Mais confusão. A essa altura, os jornalistas brasileiros entraram em cena agindo como a famosa “turma do deixa-disso”. Flavio Adauto, que também estava no hotel, conseguiu falar com o colega, alertando-o para o fato de que estavam sob a ditadura militar da Argentina. “Os caras vão sumir com você”, disse.

Laureci e Ferreria conseguiram deixar o local e foram para o hotel em que estavam hospedados. Quando chegaram, João estava no ar com mais um boletim. Ferreira, transtornado, quase sem ar, toma o microfone e começa a protestar: “Eu sabia. Eu sabia que eles iam mostrar a cara, a qualquer momento. A máscara ia cair. Queriam me levar para o esquisito! Caiu a máscara da ditadura argentina”. Esse esquisito pode ser um local de tortura.

João pegou o microfone de volta, encerrou o boletim e tomou uma decisão. Pediu que a dupla ficasse no quarto, enquanto descia até o saguão do hotel. Chegando lá, ele encontrou Fernando Solera, então narrador da TV Bandeirantes, discutindo com as funcionárias do hotel por causa de problemas nas reservas. Dois brucutus (segundo o relato) e queriam levar Solera. Mais confusão.

O apresentador então deixou o hotel, pegou um táxi e pediu para ir até o consulado do Brasil na cidade. Chegando lá, (era um sobrado) subiu uma escada, viu uma secretária e pediu para encontrar com o cônsul . Não houve tempo para uma conversa no local. Ambos foram diretamente para o hotel e o caso foi explicado pelo caminho.

Na chegada, João e o cônsul (cujo nome não foi revelado) foram abordados por duas pessoas de terno, que se identificaram como policiais federais e com ordem para não deixar ninguém de fora entrar, uma vez que eles eram responsáveis pela segurança.

Na base da conversa, tudo foi se explicando. Ferreira e Laureci foram orientados a descer do quarto, até porque o cônsul estava lá para amortecer o impacto dos acontecimentos daquele dia. O jornalista conversou com os federais. João não chegou a contar o desfecho em que ele teve uma participação decisiva, mas subentende-se que tudo terminou sem consequências para os principais envolvidos.

Ferreira Netto ficou conhecido por apresentar programas de debates políticos nos finais de noite na televisão. Teve passagens pela Tupi, Record, SBT, Bandeirantes, Gazeta, Manchete e CNT. Em rádio, esteve nas rádios Excelsior, Gazeta e Trianon. Chegou a ser candidato ao Senado, por São Paulo, nas eleições de 1990, pelo PRN, então partido do ex-presidente Fernando Collor de Melo. Perdeu a vaga para Eduardo Suplicy, do PT. Morreu em 2002, aos 63 anos.

Laureci Calheiros foi técnico de externa em diversas emissora de rádio em São Paulo. Nos últimos anos de sua vida, prestou serviços para a Rádio Transamérica. Morreu em 2019, com 74 anos.

Veja abaixo o depoimento de João Carlos Albuquerque.